nu blado

“Não é que eu não seja o que pareço; é que eu não pareço tudo o que eu sou.”

Sempre há opções de ação. Você pode “ser você mesmo”, por uma decisão autônoma sua. Você pode agir como sempre o fez. (São duas coisas diferentes. Agir “como sempre” indica a existência de um comportamento padrão, mas não que este tenha sido condizente com “ser você mesmo”.) Ou você pode agir conforme a conveniência desse caso atual. Depende do objetivo – a honestidade consigo mesmo, a preguiça de fazer diferente, ou a busca de algo específico nessa situação.

Agir conforme a conveniência não significa, necessariamente, mentir. Você pode simplesmente se omitir, em algumas situações. Enfumaçar sua imagem. Tornar-se intangível. Alguns dirão que omitir é mentir, e eu concordarei. Mas teremos que admitir também que, se omitir é mentir, mentir é pior que omitir.

A vantagem de uma ação assim calculada é que se obtém mais do que se teria se assim não agisse. Pelo menos isso é o que se espera. Ou se obtém mais rapidamente. Quando você age como realmente é, não pense que isso mostrará o que a outra pessoa é. Mostrará apenas a reação dela ao que você é. O núcleo dela pode estar bem longe disso.

Já quando você começa a omitir-se, você cria espaço para que apareça não só o que a pessoa é, mas até para suas projeções sobre o que você é ou deveria ser. Sobre seus silêncios, ela irá construir suas falas. Mas qual o lucro obtido ao se chegar ao que a outra pessoa efetivamente é? A bem da verdade, quase nenhum. Mais vale estar com alguém que te faça bem do que conhecer a fundo esse mesmo alguém. Talvez mesmo essas duas coisas sejam incompatíveis: conhecer alguém e sentir-se bem perto desta pessoa. Impossível conhecer e gostar, simultaneamente.

Se é impossível, isto significa um fim. Conhecer é provocar o término da relação. Uma coisa que poderia durar anos durará meses ou semanas. Basta esperar a náusea chegar. É intenso, como um pavio queimando rapidamente, e a explosão. Mas se há uma coisa que uma criança nunca pensará é na prudência: se eu tenho uma bomba em minhas mãos, porque não irei acendê-la?

No fim, ela, a outra pessoa, sairá sem saber nada de você, mas achando que sabe demais. No fim, você sairá sabendo demais sobre ela, só não saberá o porquê de você mesmo agir assim, sairá sem saber nada de você mesmo…

(Fernando César)

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conoide e esferoide

Pedi: “me dêem uma tábua, que construirei uma ponte”.

Nesse momento, lembrei-me de Arquimedes que disse, há mais de dois mil anos, “me dêem um ponto de apoio, que moverei o mundo”. Senti-me uma merdinha, nesta comparação, mas o trabalho tinha que continuar.

E, vantagem por vantagem, ninguém deu tal ponto de apoio ao físico, e o mundo continuou no mesmo lugar, porque o infeliz também não teve a capacidade de ir sozinho buscar o ponto de apoio, muito menos de construir uma tábua que fosse da Terra àquele ponto. Ao invés disso, foi escrever um livro chamado “Dos conóides e esferóides”. Eu, hein!?

- Tá pensando em quê, senhor?

- Nada não, vamos logo com isso, que dormir aqui não vai ser nada bom.

Acabamos tendo que dormir por lá, as toras de madeira que arrumaram ou eram curtas ou eram finas, e não tivemos como passar o jipe de um lado ao outro do riacho.

No dia seguinte procuraríamos algum lugar onde a água fosse mais rasa, e passaríamos na louca, com jipe e todo mundo dentro.

Mas mais uma vez me enganei nos meus julgamentos, pois a noite foi agradabilíssima. Especialmente porque a filha do seu Antônio estava conosco, e acabamos nos perdendo, eu e ela, em busca de mais gravetos, a propósito de fazermos uma fogueira.

Já notou como ninguém “entra” na mata? Todos sempre se “embrenham na mata” – principalmente se for virgem…

Mas o fogo não foi necessário para nos esquentarmos. Estou falando de mim e da Sapeca.

(Fernando César)

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e cronica, policial

Matou a desgraçada.

Agora está preso, continua a ser visto como corno, e sente uma saudade sem fim da cachorra…

(Fernando César)

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faltas justificadas

- Ué, por que você não veio trabalhar ontem?
- Porque eu sabia que você viria, e não queria te ver. Me faria mal.
- E por que não veio anteontem? Fiquei sabendo que faltou também…
- É, não vim porque eu sabia que você não viria. Não queria te não-ver. Me faria mais mal ainda…

(Fernando César)

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porrada de todo lado

(para Lorena)

“Os opostos se distraem
Os dispostos se atraem”

(Teatro Mágico, em “Realejo”)

Há pessoas de sorte nesse mundo. Eu conheço algumas. Pessoas que logo no começo de suas vidas sentimentais encontraram A pessoa, namoraram, casaram, e vivem bem. Mas às vezes desconfio dessa facilidade (não dessa felicidade, que parece verdadeira). Desconfio que estariam bem com quase qualquer pessoa. Não vou dizer com “qualquer um” porque isso pareceria pejorativo. (É engraçado como as palavras melindram, e você pode dizer a mesma coisa sem ofender… O que é uma desvantagem, às vezes: quando queremos ofender e não conseguimos, quando falta a palavra ferina.)

Se a questão não é a sorte do encontro, no mínimo podemos dizer que são pessoas tranqüilas. Que aceitam com relativa naturalidade o que a vida lhes deu. Bom, nascer assim também é uma questão de sorte…

Pra mim, essa questão de sentimentos etc. nunca foi muito pacífica. E acho que nunca será. Tá bem, a gente poderia tentar buscar umas explicações na minha infância, essas coisas, mas isso nunca vai explicar de verdade, por completo, as pessoas como elas são. Infâncias similares à minha não darão necessariamente em alguém como eu. Infâncias melhores que a minha darão em casos piores que o meu. Pessoas nascem diferentes, pessoas têm destinos diferentemente traçados já ao nascer.

E a gente poderia também dizer que eu sou “mal-resolvido”. Essa palavra é extremamente preconceituosa, porque estabelece um juízo de valor: o ideal, o objetivo, é a pessoa ser “resolvida”. Isso significa, de uma maneira geral, ter poucas namoradas, engatar um namoro longo com uma dessas primeiras, noivar, casar, essas coisas. Como se isso fosse o melhor pra todo mundo. E como se a minha situação fosse, por conseqüência, pior que a dos “bem-resolvidos”. Tá, seria pior, se eu me sentisse mal na minha situação, se eu desejasse ter nascido com essa sorte de ser facilmente contentável. Ou com essa puta sorte de achar aos 20 anos a mulher-da-minha-vida. (Uma ótima frase, proferida por aí um dia desses: “A que eu estou é a mulher da minha vida; a outra é a mulher da minha existência, de todas as minhas reencarnações…” – não, apesar disso ele não fez nada pra ficar com essa segunda.)

Agora, se trocarmos “mal-resolvido” por “não-resolvido”, chegamos a um nível onde já é possível dialogar (porque dialogar com dogmas é impossível). OK, sou “não-resolvido”. Inconcluso.

E essa inconclusão não é uma coisa apenas sentimental, mas também intelectual. Aliás, não sei, mas talvez seja até mais intelectual que sentimental. As coisas me fazem pensar, e me apetece pensar sobre as coisas que me acontecem, e até sobre as que me não acontecem. Eu vou criando uns universinhos de possibilidades, de personagens, de histórias, de desfechos. E de desfechos inconclusos, como não poderia deixar de ser. Uma pequena enciclopédia ilustrada do amor e especialmente do desamor. Porque o amor é uno, mas o desamor tem mil possibilidades.

Às vezes eu penso que já pensei todas as possibilidades a serem pensadas. Ou melhor, esvaziando a pretensão da frase: penso que já pensei todas as possibilidades que eu poderia pensar. Mas na semana que vem ou no mês seguinte o caleidoscópio é girado novamente, e mais uma vez eu não entendo bem o que se passa, e preciso pensar, e preciso agir. Me apetece agir também.

Ao final da vida, tanto fará ter agido ou não, já que tudo vira pó mesmo. Contudo, durante a vida, agir me parece uma coisa boa. E hoje sei que é bom só para mim, desde que me convenci que, pra quem tem sono, aproveitar a vida é dormir. Eu não tenho muito sono, então me parece melhor fazer algumas coisas por aí. Uns desenhos sobre a água.

Pra mim, é vital. É ruim, de vez em quando. Geralmente é bom. Mas, em essência, é inevitável. É como se minha vida fosse o passar por um corredor polonês, tomando porrada de todo lado. Mas quando eu digo “porrada” é em um sentido totalmente diferente de algo ruim. É ruim, de vez em quando. Mas geralmente é bom.

A porrada é esse algo que me balança, só isso. É a provocação da vida. Às vezes eu olho praquelas pessoas sortudas e me pergunto: mas como é que essas coisas não acontecem com essas pessoas? Como é que quase nada as mobiliza? Como é possível que não tenham dúvidas, que não se abalem? Não estou dizendo que deveriam se abalar, se apaixonar, sofrer, viver em função dessas confusões. Só fico me perguntando como é possível. Só acho a resposta do “destino”, da personalidade que assim nasceu e assim morrerá. E isso, no fundo, não me responde nada, porque não há resposta possível, sempre entenderemos o “como” as coisas funcionam, nunca o “porquê” da vida ser assim.

Mas também sei que, aos poucos, essas porradinhas semanais, mensais ou diárias (a depender do plano astral) também vão criando, pelas reações que tenho, uma coleção de respostinhas, que se não servem a ninguém, ao menos a mim são úteis.

Essas historinhas são meu quebra-cabeças sagrado. Penso que se as perdesse ficaria sem um dos meus pilares. Seria como perder, de forma irrecuperável, o número 1 da coleção completa dos gibis do Batman. Gosto das histórias alheias, que escuto diariamente, mas no fundo elas raramente mexem comigo. (Seria demais, né, absorver as porradas minhas e as alheias… Como assistir a uma luta do Popó pela TV e acordar com hematomas.)

Sei que o inverso também é válido: as porradas que recebo de todo lado não interessam a ninguém. Não lhes interessa a dor em si (“dor” em um sentido totalmente diferente de algo ruim, também). Interessa a reação que tenho, ou é apenas voyeurismo. Mas como algo interessa, e sempre interessará, sempre existirá então pessoas que visitam a minha vida, ou a vida contada de qualquer pessoa. Ninguém é tão desinteressante a ponto de não ter uma história qualquer pra contar – mesmo que seja uma história entediante…

Sei, contudo, que a minha história completa só eu amo. E sempre amarei. Aprendi a me perdoar tentando fazer melhor da próxima vez. De um modo geral não consigo, mas como em tese sempre haverá uma próxima vez, sigo pensando na próxima. Ou nesta. Dessa vez farei melhor. Cometerei erros inéditos, apenas.

Você merece o melhor. (Chavão.) Você merece algo melhor. (Discurso pra abandonar sem ferir demais.) Não, quem merece o melhor sou eu: eu mereço que eu faça o melhor que eu puder, mesmo que isso signifique, eventualmente, o pior pra você. Mas se isso refletir em algo bom pra você, considere-se… uma pessoa de sorte!

Eu acho que sei o final dessa história (só não posso falar porque falar sobre o futuro altera o mesmo) e ando me sentindo velho demais pra tentar não ver e mais ainda pra fugir. Todo enquanto tá valendo a pena.

(Fernando César)

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o canto do cisne

Primeiro, te apaguei da minha cabeça. Joguei fora tudo o que me fazia lembrar de você, te deletei do MSN, do Orkut, queimei nossas fotos, agradeci a Deus por não ter tatuado seu nome no meu tênis. Troquei de amigos, enchi minhas noites com outros assuntos.

Quase foi suficiente.

Mas ainda precisei te apagar do meu coração. Ainda sentia sua falta, sonhava com você todas as noites. Procurei colo até em estátuas. Senti o calor de outros abraços, me lambuzei em outros caldos.

Pareceu suficiente.

Eu te esqueci. Eu fiquei sozinho, e bem, e isto já era bom. E depois eu encontrei outra pessoa, e me apaixonei. Isso foi a prova de que te esqueci.

Mas um dia eu te encontrei em uma festa. Você estava na roda ao lado, e eu conversei a noite inteira com outras pessoas, e você também. Ninguém percebeu, acho que nem você, mas eu te observei a noite toda. Foi então que percebi que a cabeça esquece, o coração esquece, mas a última parte do corpo a esquecer é o canto do olho.

(Fernando César)

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coracoes no liquidificador

Primeiramente, abandonado. Ela pegou suas coisas e, sem dizer muitas palavras, foi embora da nossa, quero dizer, minha casa. Ainda estou com este hábito de dizer “nossa” casa, mas com o tempo isto passa, há de passar!

Isto me entristeceu um pouco, mas foi suportável. Nossa relação não vinha bem, e eu considerava que eu havia feito todos os esforços para que fosse diferente. Entendi sua ida como um desejo de ficar sozinha, talvez uma depressão?, uma certa desilusão crônica com a vida.

Bebi uns dias, fumei outros, e enfim reativei velhos contatos. Porcaria é que, depois de tanto tempo casado, monogâmico, longe, agora quase todas as ex-namoradas já tinham arrumado namorados, e estavam naquela de serem casadas, monogâmicas, aquela história.

Sair de casa, conhecer gente, e no bar quem eu vejo? Ela, que acabou de sair da nossa, da minha casa, triste, precisando de um tempo etc., com um cara. Os braços envolvendo o pescoço dele, outro cara, ela rindo e dando uns beijos rápidos em sua boca. Ela não me viu. Fui embora rapidamente, no estômago uma sensação de vômito, mas não era, no peito uma sensação de liqüidificador, e era.

Cheguei em casa, abri a porta com um chute, arremessei na parede o quadro com nossa foto. Fiquei três dias praticamente sem me levantar da cama. Não atendia telefone, não comia, estava morto. O pensamento, praticamente paralisado, pensava poucas palavras: “Trocado… Por quê? Por quê? Trocado…”

Os dias seguintes foram um pouquinho, mas só um pouquinho melhores. Trabalhando arrastado, comendo arrastado, dormindo com remédios, sorrindo com muito esforço. Precisava sair desta, mas os minutos não traziam esperanças.

Liguei para uma velha amiga. O conselho de merda que ela me deu: “Por que você não entra no Mhada?” O que é isso? “Mulheres e homens que amam demais.” Ri sem-graça.

Mais uma semana praticamente insuportável. Ou eu melhoro ou eu me mato. Nem que seja afogado em uísque barato.

- Onde é este tal de Mhada?

Fui. Cabisbaixo, envergonhado, sofrendo. Na recepção, uma moça pegou meus dados. Perguntou se eu tinha uma foto 3 x 4. Não. Precisa, para fazermos a carteirinha. Busquei correndo em casa, voltei. Precisava mais que tudo entrar logo para este grupo, sentia uma expectativa imensa de que lá estivesse a cura.

Quando ela me entregou a carteirinha, de súbito compreendi o método deles, o método mais eficiente que jamais vi. Olhei para o pedaço de papel plastificado em minha mão, com meu nome, minha foto, e escrito: “Mulheres e homens que amam demais – associado”. Neste momento me senti a pessoa mais ridícula do mundo: ei, quer dizer que eu, eu?, amo demais esta mulher?, logo esta mulher, que não me quer?!

Em um segundo, sarei. Passou toda aquela paixão, aquele sofrimento, aquele poço sem fundo. Comecei a rir. A recepcionista sorriu.

Entrei para a sessão. Não pude deixar de ter a sensação de que todos ali estavam já curados, pelo mesmo método, e naquela sala estavam apenas por curiosidade, como eu, somente para ouvir histórias de amor e arrebentação.

(Fernando César)

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anatomia de paixao nao correspondida

(I) Do objeto de estudo

Anatomia: s.f.; estudo detalhado das partes de organismo animal; a arte de dissecar. Notar bem, caros alunos, que a Anatomia não diz nada sobre o tratamento das doenças.

Quase toda paixão tem um quê de não correspondida. Até mesmo em casais que estão juntos, geralmente há uma desigualdade do desejo.

(II) Do surgimento

Obviamente, primeiro precisamos do surgimento de uma paixão, para que depois ela possa ser não correspondida. O primeiro sinal da paixão é: nos cinco primeiros minutos após acordar, você já pensou na outra pessoa.

(III) Do gosto inicial

A paixão é o desejo de algo mais do que se tem. Em essência, é fantasia. Nesses primeiros momentos, portanto, ela não tem sabor. Mas faz parte da paixão o movimento, ela irá tentar consumar seu desejo. Nesta tentativa, ou irá ser bem sucedida, ou não. Prepare-se, desta forma, para o amargo ou para o doce.

(IV) Enquanto ainda há esperanças

Adia-se a decisão de ouvir o “sim” ou “não”.
Sua vida muda. Você perde totalmente a naturalidade. Porque agora quer conquistar. Cada frase, cada gesto, tudo passa a ser pensado, calculado – isto me trará ela ou a afastará? Todo movimento é perigoso, para o apaixonado.
Inevitavelmente, as frases certas só aparecem depois que a conversa acabou.
Todo dia é um dia de histórias e movimentos.
Pior que jogo de xadrez.

(IV) Do primeiro revés

Ao primeiro sinal de um “não”, vem o desejo de fugir.
Já disse o cientista: “Quando a fuga é possível, esta resposta prevalece sobre as demais; se, por outro lado, existem condições para um ataque ao oponente, a agressão defensiva é a resposta predominante.”
Mas qual é o oponente? O “não” e suas conseqüências – o sofrimento. Não há formas de atacá-lo quando o barco parece que começará a virar.

(V) Da fuga e do amargo

Resolve-se, então, fugir, afastar-se.
Até então, lembremos, a paixão não tinha um sabor, além do primeiro fel do primeiro revés.
Mas já havia paixão, o desejo – enfim, a potência.
O afastamento trará o amargo. Fudeu!
Pois a potência virou falta. Você nem sabia que estava gostando tanto assim dela, mas a ausência te joga isto na cara, no coração.

(VI) Do retorno

Não, não, não!
Não pode ser! Mas é! Você está definitivamente apaixonado (a). Desejando a outra como nunca esteve. E foi apenas um pequeno revés. Você decide voltar a tentar.

(VII) Da cegueira

Nada será como antes. O amargo faz o desejo do doce virar urgência. É preciso agir, tentar, lutar.
Era evidente, e o primeiro quase “não” quis te mostrar isto.Havia o momento certo para correr. Não aproveitou. Quis cegar-se a isso.
Agora tudo é dúvida. O que fazer para sair desta?

(VIII) Da confusão
Neste momento, desejos diferentes se misturam.
Desejo de ter, desejo de esquecer, desejo de não se humilhar. Perdido no deserto. Cada momento age de um jeito, levado pela preponderância de um destes desejos.
Boa parte da angústia, na verdade, não é a paixão, mas só a dúvida do caminho seguro a tomar. Mas não há caminho certo, e sua ação a cada minuto é diferente. Afasta-se, volta, dá bandeira, afasta-se novamente.
Ela pensa que você está louco (a).
(E está!)

(IX) O xeque-mate

E a resposta: “não!”

(X) Da incompreensibilidade
Você não sofre porque não pode voar. Se pudesse, seria legal, mas você nunca pôde, então você nem pensa nisso.
Mas um dia você já quis alguém e já teve. Então, conquistar pessoas é algo possível.
Porém, esta você não conseguiu. Por que não, se é possível conquistar pessoas? Por que não? Por que não?
Se estivesse perdido em uma floresta, saberia que andando em linha reta chegaria a algum lugar.
Mas onde você está agora, no oco do mundo, não há caminho, não na saída, não há mesmo chão.
I`m sorry.

(Fernando César)

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A FRASE MAL DITA

Um clima e um impasse: ela tinha namorado. Aliás, o problema nem era exatamente este, já que, se a traição existe, é por haver quem traia. A questão era que, além de namorado, ela tinha o hábito de ser honesta com ele. Portanto, se algo ocorresse, ela acabaria contando ao namorado, e teríamos uma bela confusão armada.

Ótimo vislumbrar todo este desfecho, para ele, pois assim poderia evitá-lo, partindo em busca de qualquer outra coisa, que mulher é o que não falta. Porém, por uma série de acasos, ele continuou a encontrá-la, e a cada vez parecia-lhe que gostava mais dela. Talvez fosse até por esta impossibilidade, mas o que adiantaria saber quem rabiscava corações no muro se isto não traria a borracha?

Se ela se decidisse a ficar com ele, teríamos aqui um (precoce) final feliz, à maneira dos filmes: omitindo o sofrimento de quem seria abandonado para que nosso casal de protagonistas pudesse ficar junto. Contudo, acho que já disse isso: ela tinha namorado. E quando se tem um namorado, por mais que se reclame deste relacionamento, sempre é melhor que estar só, sempre é melhor que arriscar, sempre é melhor que alguma coisa, pois se fosse a pior coisa do mundo, ela não estaria ainda com ele.

Percebendo que, apesar do interesse da parte dela, talvez nada fosse ocorrer, após mais um destes encontros que já nem eram mais tão casuais assim, ele despediu-se dela dizendo “eu vou te esquecer até amanhã”, virou as costas, entrou no seu carro e partiu.

Ela caminhou para seu carro, repetindo as palavras dele em sua mente, mas a entonação que ouvia não conseguia esclarecer-lhe nem pontuação, muito menos significado do que foi dito. Pensou em umas três interpretações para a frase que ele lhe disse ao ir embora. E, naquela noite, desejou com ardor que nenhuma das três coisas se realizasse.

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F(A)ETAL

(Para Pryscila, ou Priscyla, ainda não sei seu nome…)

Mulheres que dormem em posição fetal são um perigo. Elas dormem aninhadas, encolhidas, enroladinhas sobre si mesmas.

Elas são perigosas. Porque despertam ternura.

Isto é a pior coisa que uma mulher pode fazer com um homem.

Um homem que criou ternura por uma mulher é um homem morto!

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