A GATINHA E A CADELA


imagem de fonte ignorada

Um dia uma gatinha apareceu na porta de sua casa. Branquinha, linda. Você adora gatos(as) e a pegou para criar. Logo se afeiçoou a ela. Ela era calma, manhosa, despertava vontade de colocá-la no colo e ficar massageando sua nuca para vê-la ronronar. Discreta, elegante, inteligente.
Mas eis que de repente descobre que não se tratava de uma simples gatinha, mas de um animal mutante, que à noite transformava-se em uma cadela. Você odeia cachorros(as). Porque geralmente são mesmo como a cadela que a gatinha se transformava: bravos, não param de rosnar, espumando a boca. Mordem, destróem a casa com sua fúria espalhafatosa. Rebentam a coleira e saem sem rumo. Tudo o que a cadela fazia te desagradava ou machucava.
Algo você teria que fazer, e pensou em várias opções.

Expulsar a cadela.
Mas ficaria também sem a gatinha que ama. Matar a cadela teria o mesmo efeito.

Tentar educar a cadela. Mostrar a ela que o bom comportamento seria bem recompensado.
Em vão. A gatinha é domesticável, aprendeu todos os truques, o que te levou a acreditar que quando se transformasse em cadela comportar-se-ia como uma gatinha civilizada. Mas a cadela é do mato, e quando transformada percebeu-se que ela nada aprendeu. Ela continuou a te morder, e como doía!

Externar claramente a sua dor, gritar, chorar. Quem sabe a cadela tivesse dó?
Risos. Não faz parte do vocabulário das cadelas selvagens a palavra “dó”… Pelo contrário, elas sentem é prazer com a dor alheia. A cadela sorriu arreganhando o canto dos lábios.

Ameaçou a gatinha: na próxima transformação, a cadela será punida, a encherei de pancada, sem piedade, porque não gosto dela.
A gatinha ficou com medo. Ela é sensível. Você pensou que agora sim, tinha achado a solução. Mas, infelizmente, a gatinha não pôde domar o fenômeno e transformou-se em cadela mais uma vez. Você cumpriu o prometido e desceu o pau na cabeça da cadela. Quem sabe com a dor que sentiria a cadela, a gatinha pudesse fazer impedir-se, da próxima vez, a transformação?
Mas a cadela… Ah, as cadelas… As cadelas nem dor sentem direito! E o pior é que a pouca dor que sentem as atiça, as transforma em bestas muito mais atrozes. A cadela apanhou, mas mordeu muito mais forte desta vez. Você quase ficou sem a perna. E, depois de te agredir, ainda quis ir embora, mas você não deixou, porque poderia ficar sem a gatinha.
E mais: quando, no amanhecer do dia a gatinha ressurgiu (a cadela surge sempre à noite, a noite tem algo que a transforma), ela apareceu ferida, mancando, e você ainda teve pena. Jurou a ela nunca mais fazer agredí-la. E, naquela mesma noite, lá estava de volta a cadela… Seus olhos marejaram quando viram a besta surgir novamente…

Por que esta maldita transformação ocorria? – você se perguntava. Seria alguma substância que ela ingeria? Percebeu que a cadela tinha muito prazer com o sangue, parecia querer beber o sangue da carne de suas vítimas, e viu que isso a deixava ainda mais possuída, mas não era isso exatamente a causa da transformação.

Um dia você estava presente em sua casa, ao pôr-do-sol, e pela primeira vez presenciou a transformação ocorrer, passo-a-passo. E o que viu lhe cortou o coração. A gatinha parecia sentir prazer em estar virando aquele bicho que tanto te machucava.
E então você compreendeu que era da natureza daquele animal, que um dia apareceu na porta da sua casa, ser gatinha de dia e cadela à noite. A cadela não era uma aberração, era parte daquele animal, aquele animal que não era só uma gatinha, nem só uma cadela, que na verdade não era nada disso, pois não permanecia nunca como uma coisa ou outra. Você estava de frente a uma “gatela”! A metade daquele bicho você amava, a outra metade temia e odiava.

Você se sentou no sofá. Abaixou a cabeça e esfregou o rosto com as mãos. Teria uma decisão a tomar.

Resolveu trocar a gatela por uma gatinha de verdade. Foi a uma loja, comprou uma gatinha um tanto quanto parecida com a gatela-quando-gatinha. Bonitinha, mansa etc.
Ao chegar em casa, colocou a gatela na rua, já com certo pesar. Colocou a nova gatinha na sala. Olhou para ela e começou a chorar, mais uma vez. A irmã gêmea do seu amor não é seu amor. Passou a mão na cabeça da gatinha e a devolveu à loja.

Sentou-se mais uma vez em seu sofá.
Amava a gatinha e ela te amava. Odiava a cadela e ela te odiava. Sim, a cadela não te mordia gratuitamente, ela também sofria por tê-lo como “dono” – simplesmente porque cadelas não querem ter dono.
E, perguntando-se o que fazer, você compreendeu, de súbito, que não havia o que fazer.

À noite, recolheu-se em seu quarto e tentou dormir logo, para esquecer o que acontecia lá fora e para que o dia chegasse o mais rápido possível.
Mas teve insônia, e esta foi a pior noite de sua vida.

Intertexto
* um PS.: o Google não apenas tem solução para tudo, como consegue acabar com qualquer mistério da literatura… Um dos anúncios que eventualmente aparece no pé deste post promete resolver quase todo o drama do protagonista deste texto:

Tsc, tsc…

  1. #1 por Juliana em 1 de Julho de 2008 - 21:03

    nossa no seu melhor estilo parabens

  2. #2 por Isinha em 1 de Julho de 2008 - 22:15

    é isso aí, concordo com a Juliana!
    no seu melhor estilo!
    beijinhos.

  3. #3 por Bebê em 2 de Julho de 2008 - 12:53

    Cheio de novas leitoras, hein! rsrsrs
    Saudade de ser sua gatinha.
    Beijooosss!!

  4. #4 por Veruska em 2 de Julho de 2008 - 15:01

    Tenho que te confessar uma coisa: tou mais pra cadela…e pior, eu gosto de ser! kkkkkkk
    Biju pra ti!!

  5. #5 por Lorena em 2 de Julho de 2008 - 15:21

    O ” gatela”, foi uma sacada! neologismo fernandiano, adoro!

    Parabéns amor!!

  6. #6 por Graziele Alencar em 7 de Julho de 2008 - 17:50

    Não sei se me divirti mais com o texto ou com os comentários (hahahaha).
    Acho que “O homem não sabe fechar as pernas da mulher” também merecia a mesma repercussão deste, pois suas teorias são muito interessantes.
    Beijos.

  7. #7 por Graziele Alencar em 20 de Julho de 2008 - 17:55

    Esse “divirti”… fui eu sim… mas, como toda boa libertinagem, ele não tem explicação – ou isso não passa de um eufemismo (risos).

  8. #8 por maurilio em 24 de Março de 2010 - 11:39

    essa foi uma historia que minha cara com minha esposa de dia e uma gatinha mais noite sei nao e pra si lasca chata confusao a noite toda

  9. #9 por CAROLIONA em 9 de Maio de 2010 - 21:19

    CONFESSA QUE VOCÊ GOSTA DA CADELA E ATURA A GATINHA….. RSRSRSRSR

(não será publicado)

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