A MOÇA DA LOJINHA


clique para ver a imagem ampliadaNão sei o nome da moça da lojinha – só agora me dei conta disto – e por que é que começamos a descrever alguém pelo nome?!
Sei que tem um sorriso bonito – mas qual sorriso não seria bonito?! – meu Deus, é hoje o Dia Internacional da Digressão?!
Tem um sorriso bonito – ou qualquer outro bom adjetivo – e a bunda bem comprimida em uma bermuda jeans.
Essa moça é casada.
E é absurdamente infiel. Mas ela não sabe disso.

Esse sorriso dela é que a torna infiel. Quando o descrevi, disse que era “bonito”. Mas, na verdade, é encantador. Não estou apenas trocando um adjetivo por outro mais intenso. Digo “encantador” no sentido de sedutor. Pensem na origem da palavra “encantar”. Não sabem, ok. Nem eu. Mas me lembra o canto das sereias, que enfeitiçava os antigos marinheiros tragando suas vidas – menção honrosa seja feita a Ulisses, que a elas conseguiu resistir, embora a custo de engenhoso artifício(1).
O sorriso da moça seduz porque é gratuito. Tenho certeza que seu patrão não a instruiu para a gentileza, muito menos a persuadiu a isto. Porque todos os outros funcionários da lojinha tratam bem os clientes, mas não sorriem gratuitamente.
(E tenho certeza que é patrão, e não patroa – caso fosse, já estaria demitida.)
A moça da lojinha não, ela sorri docemente – qual sorriso não é doce?! O que não é dado para nós?
Ela sorri candidamente a cada vez. A cada vez que entramos na loja, a cada vez que olhamos para ela, a cada vez que pagamos, a cada vez que saímos. A cada vez, enfim.
Chegamos a ficar sem saber o que fazer. Ao primeiro sorriso retribuímos, por educação. Mas e a todos os outros?!
Esse seu sorriso me parece uma carência extrema. Lembra-me aquele mito da mulher esperando o príncipe no cavalo branco. Numa versão mais moderna, talvez. Ela parece querer ser raptada.
Que ela é casada sei porque vi a aliança. Que é casada e sorri infinitamente, é apenas o que sei dela. O resto deduzo. Que seu marido não é rico. Que deve ser, no mínimo, um pouco ciumento. Que não tem, o casal, muito tempo para divertir-se, pois ela trabalha muito. Que ela se casou por gostar dele, mas sabia que ele não era o príncipe. Que quando ela passou a trabalhar nessa loja ela tomou contato com vários outros homens, com mais dinheiro. Que ela não quer dinheiro, apenas a liberdade que esse lhe daria – esse homem e seu dinheiro. Ela quer que o príncipe pare na porta da loja com seu carro e lhe leve para viajar.
Talvez eu esteja completamente enganado – seria ela a esposa do dono da loja? Mas isto não explicaria nem porque ela trabalha tanto nem o sorriso inabalável.
Suponho também que ela não traia o marido. Deve ter sido criada dentro de princípios honestos, tanto é que trabalha. Não foi obrigada a casar, não tem cara de quem tem filhos. Se casou, tem que ser fiel. Tudo isso permanece no seu consciente. Não pensa em trair. Não fica pensando no príncipe. Ocasionalmente deve ter sonhos que acha estranhos, com homens desconhecidos, um rosto que viu no dia. Acorda um pouco confusa.
O seu sorriso é que a-trai.
Se ela traísse o marido, não sorriria assim, indiscriminadamente. Para quase todos os homens. Ela não percebe, mas para uns ela sorri mais que para outros. E para as mulheres, um pouco menos ainda (e a amplitude de abertura da boca é ligeiramente menor). Coisas sutis.
Deve receber muitas cantadas. Sutis também, pois não é oferecida, longe disso. Cantadas grosseiras refletem não o caráter do homem, mas o da mulher que as recebe. Como são sutis, apenas finge que não as entendeu, pois é casada e fiel. Sente-se lisonjeada, apenas. Levemente satisfeita.
Contudo, não é isso que ela quer. Ela quer ser raptada. Uma proposta irrecusável. Nada de casa, comida e roupa lavada. Quer hotel, bebida e biquíni. E aninhamento, claro.
Então ela soltaria seu cabelo.
Essa moça é uma sereia. Mas ela não sabe disso.
O que encanta nessa moça não é apenas o seu sorriso. Para quem consegue ver além, há também esta sua ingenuidade. Semi-ingenuidade. Um Demônio sem consciência, sem culpa.
Deus permita que ela nunca tome consciência do que é, ou pararia de sorrir.

Invertendo tudo agora… Será que ela é apenas simpática e eu é que estou querendo raptá-la? Raptar esta simpatia extrema? Tê-la só para mim?
Já disseram que o “canto das sereias” era apenas o som do vento passando por rochedos e resvalando nas ondas, o que o tornava quase feminino. Os marinheiros, curiosos, se dirigiam à origem desse som e seus barcos quebravam nas pedras.

Intertexto
* (1) para escapar do canto das sereias, Ulisses (ou Odisseu) tapou o ouvido dos outros tripulantes e amarrou-se ao mastro do navio;
* nem todas as sereias têm corpo de peixe: algumas possuem corpo de pássaro;
* diz a lenda que a única forma conseguir se livrar de uma sereia é cantar ainda mais bonito que ela;
* Franz Kafka, em um conto de 1917, escreveu: “As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível que seu canto: seu silêncio.”

  1. #1 por Você sabe em 14 de Junho de 2008 - 14:18

    Este texto, que pretendeu ser naturalista (como você o chamou), acabou fazendo-se doce. Tanto assim que me leva a crer que a nova versão do site não vai ter nada de confusa, sinalizando, talvez, uma fase sua mais madura…

    Sobre o visual: Não gostei do vermelho… E você fica mais interessante canhoto! hahaha

    Quanto ao estilo: “sobre a minha pessoa” é brega de doer! Não faz birra e troca por “sobre mim”, pelamordedeus!! kkkkkkkkkkkk

    Questões para a revisão dos textos (tenho certeza que foi mera falta de atenção):
    - não se usa crase antes de palavra masculina (a sério);
    - o verbo participar pede a preposição “de” e não “em” (participei de).
    - no mais, só questões de pontuação, mas nada gritante…

  2. #2 por eu sei em 14 de Junho de 2008 - 17:58

    1.a) sobre interpretações: no “Nome Criativo” tem um comentário que diz que o texto foi “cruel”…
    1.b)Um único texto “doce” não é garantia de nada, hehe… Aguardemos…

    2.a) O vermelho: ainda vou fazer outros testes de cores. Que cor você sugere?
    2.b) A foto: realmente, EU NÃO TINHA NOTADO!, hahaha. Terei que fazer tudo de novo…

    3) Falando que é “brega de doer”, aí não tem como eu não trocar… Vai apelar para argumentos pesados agora? Rsss.

    4) Acho que não foi “mera falta de atenção”, não… Bate e assopra?!

  3. #3 por você sempre vai saber em 15 de Junho de 2008 - 1:50

    1. Penso que algumas pessoas comentam no seu blog contaminadas por um (pré?) conceito que têm da “sua pessoa” (hahahahaha), porque conhecem algumas das suas aventuras amorosas.
    Eu não limito a minha leitura com interpretações biográficas, apesar de que, às vezes, fica(va?) óbvio a sua vontade de se pôr na vitrine. Assim, eu direciono alguns comentários machistas do texto como sendo apenas do “eu literário”.
    Enfim, como um texto com esse título, falando do encanto de um sorriso, pode ser cruel? A crueldade, se ela existe pra alguém, fica por conta de projeções do “eu poético” (como você insinuou no final do texto) e de um ou outro leitor, já que cada um lê com os olhos que tem…

    Ademais (não vem dizer que sou formal… hahahaha), sinto que existe um desejo seu de continuar sendo um jilozinho… kkkkkkkkk… mas eu vou acompanhar as cenas dos próximos capítulos por aqui (pago pra ver!)…

    2. Eu não sou a pessoa mais indicada pra sugerir cores (minha criatividade não é voltada pra essas coisas de design).

    3. Concordou com tudo e não mudou nada! Cabeça-dura como sempre! hahaha

    4. Eu sempre bato, mas o assopro é só pra alguns ;)

  4. #4 por Ainda eu em 15 de Junho de 2008 - 1:56

    *ficava óbvia a sua vontade…

  5. #5 por Vanessa em 19 de Julho de 2008 - 21:33

    Olha, devo dizer 3 coisas…
    a primeira… putz… q comentario infeliz esse ein? “Cantadas grosseiras refletem não o caráter do homem, mas o da mulher que as recebe.”

    a segunda… achei bem cruel, como quase sempre.

    a terceira, eu gostei do final. mas acho q é um pouco das duas coisas, se nao ela nao sorriria (afinal ela nao é um amontoado de rochas) e ele nao repararia no sorriso! =P

    E viva as mulheres inocentes, boazinhas e ingênuas, e pq nao, aos homens que gostam delas? :P

    Beijos!

  6. #6 por Lorena em 19 de Julho de 2008 - 21:33

    O canto da sereia em algum canto, ainda canta o canto dos teus olhos, porque o “canto dos olhos é a última parte do corpo que esqueçe o canto”.

    A.V!

(não será publicado)

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