Estar apaixonado pode parecer a pior coisa do mundo, quando não há chances desse fogo se concretizar, ou quando se perde. Mas não é, há coisa ainda mais cruel: estar apaixonado em duas ao mesmo tempo, e ter que escolher uma.
Isso já me aconteceu uma vez, e falo então com o aval da experiência. E digo mais: pior que isso acontecer na vida de uma pessoa, é ocorrer duas vezes. E estou vendo que irá acontecer novamente.
E por que eu não escapo antes do inevitável? Justamente por isto: é inevitável.
Na verdade, não estou apaixonado em nenhuma, no sentido exato do termo. Nem fico pensando nelas durante o dia. Levo minha vida naturalmente. Mas sei bem porque não estou vidrado, e sei porque ficarei. Em uma, tudo vai bem porque estamos namorando.
Não gosto dela. Quer dizer, gosto. Mas é apenas bom. Poderia me casar com ela, e seria sempre bom. Mas bom é muito pouco. Falta alguma coisa.
E é essa coisa que eu vejo na outra. Dessa eu gosto. Só que não temos nada, nem um beijo para lembrar. E por que não temos nada? Pensam que é por que tenho namorada? Que é por que sou fiel? Nada a ver. Se ela quisesse, eu largaria minha namorada hoje e ficaria só com ela. E aí eu seria fiel, e não ficaria com ninguém porque eu teria uma namorada. Aliás, não é por fazer a troca que eu poderia ser chamado de infiel. Afinal, é uma coisa limpa, trocar uma pela outra, ou não? Ah, nada é limpo! Trair é sujeira. Trocar de um dia pro outro é também. As amigas dela dirão: “mas como assim, tudo tão bem e ele acaba do nada, pra ficar com outra?! Que bastardo!”. O que eu deveria fazer? “Preparar seu espírito”? Fazer ela não gostar mais de mim para que ela é que terminasse, e então se sentisse bem? Ou, por que eu gosto de outra, eu deveria nem namorar com esta que estou, “porque ela pode sofrer, se você terminar com ela”?
Certo, posso terminar com ela. Posso. Não quer dizer que vá terminar. Tudo depende da outra. Pode ser que ela nunca me queira, e então eu continuarei com minha namorada. Mesmo sem gostar dela? Mas eu gosto. É de um jeito meio morno, mas eu gosto. E pelo menos vai ter sido bom por um tempo, pra ela, e para mim. E sofrimentos passam. Ou eu deveria sacrificar minha felicidade para poupá-la de uns dias amargos?
Há uma outra alternativa, que é a de alertá-la: olha, eu gosto de outra, e se ela dissesse que me quer eu te largaria na mesma hora, mas se ela nunca falar isto eu fico com você o resto da minha vida. Mas já aprendi que há verdades inúteis. Para que dizer sobre algo que pode nem acontecer? Só para ela achar que vai acontecer, e ficar insegura, e bagunçar toda nossa história, que é legal? E pode nem acontecer da outra me querer…
O problema é: vai acontecer!
E o problema não é nem acontecer, é a palavra “vai”. Futuro. Se acontecesse hoje, todo mundo já sabe: eu largaria minha namorada na boa, na hora, sem inquietação alguma na consciência, sem uma nesga de dúvida. Mas vai demorar um pouquinho para acontecer. E é esse tempo que irá bagunçar as coisas. Porque eu estou me apegando à minha namorada. E apego é o cão. Como largar alguém a quem se é apegado? Só há uma maneira indolor: trocando isso por algo muito maior. Que é o caso do que sinto pela outra. Só que o fato de estar namorando, e este namoro ser bom, tem feito com que eu não me apaixone loucamente pela outra. Porque minha namorada satisfaz um pouco do que preciso. A paixão nasce no vácuo.
Então a equação é: minha namorada faz com que eu não apaixone na outra, mas não me faz esquecê-la como possibilidade. Se há a possibilidade, continua a expectativa, a tentativa. Mas, enquanto não acontece, gosto cada dia mais de minha namorada.
Se nunca fosse acontecer com a outra, é possível que um dia chegasse que eu dissesse que gosto tanto de minha namorada que não a trocaria mais pela outra. Mas que pensamento mais besta! Ó só: se nunca acontecesse com a outra, como é que eu poderia trocar a minha pela outra?!
E por que é que irá acontecer com a outra? Porque eu quero. Porque a quero. Porque quero e faço. E isso sempre dá certo, um dia ou outro.
Ela sabe que tenho namorada. E sabe que eu a largaria imediatamente para ficar com ela. Só que ela não sabe o que eu sei: que quando ela se decidir, eu já estarei tão próximo de minha namorada que será difícil largá-la impunemente. Sim, crime e castigo. Nem eu disse isso a ela. Porque aprendi que há verdades inúteis. Para que dizer sobre algo que irá acontecer? Só para ela ficar insegura, e bagunçar toda nossa história, que ainda nem aconteceu? O problema do moralismo nem é ser hipócrita, é ser imbecil.
Não tenho como desistir. Não aprendi isso. Meu amor por minha namorada cresce, mas nunca será suficiente. Eu sei disso. A gente sabe onde as coisas vão dar. Enquanto isso, ainda quero mais a outra, e por isto insisto com ela. Mas cada dia, porque amo mais a minha, cada dia tenho menos necessidade da outra. Mas ainda é maior.
E será exatamente assim: no dia exato em que o que sinto pelas duas for o mesmo tanto, nesse dia a outra irá dizer que quer. Não será nem um dia antes, quando eu faria a troca sem pensar, nem um dia depois, que eu já não a faria . Será no dia exato.
E aí será uma balbúrdia. Porque se eu ficar com a outra, minha namorada irá terminar comigo, e eu não irei querer isso. E não sei mentir bem. Se eu não ficar, eu é que não vou querer isso. Nesse dia terei uma espada no peito, e uma nas costas. Saída pela esquerda? Cair no nada. Sem chances. Pior que perder uma é perder as duas.
Aí volto no que eu dizia lá no começo: que querer duas é pior que querer uma. Porque perder uma é uma coisa, mas ter que escolher é, virtualmente, perder as duas. Independentemente da escolhida, passará o resto do tempo pensando na que foi deixada. E isso pode até levar a uma troca, mas que será satisfatória por apenas um dia, no amanhecer já estará com saudades da primeira.
Porque a verdade é que ninguém nos completa, mas as duas se completam ¿ digo, não que as duas juntas seriam felizes (quem sabe?), mas que eu seria com as duas. Mas desnecessário dizermos: chance zero de aceitarem isso…
Esse mundo é engraçado (sob um ponto de vista condescendente): eu posso gostar da outra, posso beijar seu rosto ao me despedir dela, posso tudo, mas no dia em que acontecer um beijo, aí tudo mudará. Um beijo acidental no canto da boca é aceitável, nem é trair. Mas se os lábios se tocarem, o mundo desaba. Por dois centímetros! Quem me explica isso?
A cada dia, aproxima-se mais o dia da escolha. Terei vontade de sumir, nesse momento, mas, de todas, esta é a única possibilidade impossível.
(Quantas vezes já morri,
e nunca se acostuma
Um saco de meus ossos nas costas
E mais e mais)
(Fernando César)