a carteira


Apaixonei-me em uma carteira. Não estou falando de um banco escolar (vou me apaixonar em pau?!) nem da carteira que uma conhecida minha apaixonou-se, de couro, do namorado dela, recheada de dinheiro.

Estou falando da Amnésia, funcionária dos Correios, a ligeirinha. Na verdade, seu nome é Anésia, mas relance, em seu crachá, li “Amnésia”, e fiquei que seu nome era esse, achei estranho mas engraçado, e vai ver foi por isso… Porque se tivesse lido “Anésia” teria achado feio, e mulher bonita com nome feio não desce…

Mas nosso primeiro “encontro”, se é que assim posso chamar, não durou mais que um minuto. Ela tocou a campainha, fui ver o que era, uma encomenda, e eu tive que assinar um recibo. Umas duas semanas depois é que pude observá-la novamente, pois a campainha novamente tocou, e ela precisando de uma nova assinatura. Foi nessa segunda vez que achei que deveria comer a Amnésia, mas ninguém come a carteira, porque elas nunca param, nunca dão chance pra um papinho.

Aí bolei uma brilhante estratégia: comecei a mandar cartas registradas para mim mesmo. Todo dia mandava uma. E essas cartas começaram a chegar. No terceiro dia, dei uma disfarçada, e falei “Estou estabelecendo uns contatos aí, então tou esperando muitas respostas pelos próximos dias…

” No quarto dia puxei uma conversa boba, perguntei se ela não cansava, se não queria uma água. Ela aceitou, bebeu e saiu andando-correndo.

Conversinha vai, conversinah vem, e me dei conta que Amnésia, como qualquer carteiro, deveria saber técnicas de abrir uma carta e fechá-la novamente sem o destinatário perceber. E pensei que se eu nunca tivesse puxado papo com ela, provavelmente ela nunca abriria uma carta minha, que ela deveria ter coisas mais importantes pra fazer. Só que como agora já tínhamos uma certa intimidade, se é que posso chamar assim nossos breves papos, tive certeza de que ela iria querer saber porque diabos um cara começa a receber cartas registradas todos os dias.

Então passei a imprimir umas cartas sérias, cada dia uma diferente, pro caso dela abrir não ver que, ao contrário do início, eu só escrevia em um papel “Amnésia, quero te comer”.

Amnésia me entregava a carta, eu assinava, conversávamos um pouco. Ela começou a me contar umas coisas de sua vida, uns desabafos, e estava chegando a hora.

Numa quarta-feira falei a ela: – Preparei um lanche pra você!

Ela sorriu, surpreendida: – Mas eu não posso, tenho que terminar essas entregas.

- Ah, que isso? Cinco minutos não farão diferença!

Cinco viraram cinquenta. Enfim, biquei a moça.

Só que eu não havia colocado cartas no correio nem segunda nem terça. Então, na quinta ela não teve motivos para apertar a campainha. Deu um pouco de dó vê-la, pela fresta da janela, indecisa entre tocar ou não a campainha. Mas esses funcionários dos Correios têm que seguir umas normas muito rígidas, coitados, e Anésia foi embora. Deu dó, mas fazer o quê?!

(Fernando César)

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