Arquivo de 9.2008

EU ME AMO

Amar, no sentido proposto por Cristo, é deixar o outro ser o que é. É aceitar o que o outro é. Em suma, aceitar que o outro não te ama incondicionalmente, isto é, não é seu escravo sentimental, não é um objeto seu.
Parece algo bonito, a forma mais pura de amor. E é. Só que esse amor não é apenas generosidade para com o outro. No fundo, ele acaba sendo extremamente voltado a si próprio, benéfico para quem ama dessa maneira. Porque, aceitando o outro como ele é, o exercício que você está fazendo é de aceitar a sua própria impotência.

Pois se você pudesse mudar o outro, você mudaria.
Se você consegue aceitar que o outro não pode ser mudado, você está aceitando que você não pode mudá-lo. Você está aceitando o fato de não ser um Deus onipotente. Você está perdoando a si mesmo do seu fracasso em não ser esse Deus.
Não existe amor que não seja egoísta.

E digo mais, mesmo sob o risco de parecer exagerado: o objetivo desse amor é virar uma espécie de desprezo para com o outro. “Se você não me ama, não me importarei com você.”
Não se importando com o fato do outro não te amar como você gostaria que ele te amasse, você busca resgatar a sua superioridade não frente ao outro, mas frente à sua incapacidade de ser onipotente. “Já que eu não posso comandar o outro, comando ao menos a mim mesmo, e a partir de agora não me importo com o fato de você não me amar.”

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duas personagens do livro

O grande romance sobre relacionamentos precisa, basicamente, de duas personagens, um homem e uma mulher. Não poderia ser o mesmo com dois homens, ou duas mulheres, o significado seria distorcido por interpretações relacionadas ao homossexualismo. O grande romance precisa despir-se destes tipos de viés. Um velho e uma jovem, um magro e uma gorda etc., nada que gere adjetivos. Um homem comum, uma mulher comum, apenas. “Comum” não é adjetivo.

O terceiro elemento também é quase necessário. Pois se o homem e a mulher estivessem em uma ilha não seria um romance, mas uma alegoria ou o Gênesis revisitado.
Aliás, por que não revisitar o Gênesis antes de começar?

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