Arquivo de 4.2006

anatomia de paixao nao correspondida

(I) Do objeto de estudo

Anatomia: s.f.; estudo detalhado das partes de organismo animal; a arte de dissecar. Notar bem, caros alunos, que a Anatomia não diz nada sobre o tratamento das doenças.

Quase toda paixão tem um quê de não correspondida. Até mesmo em casais que estão juntos, geralmente há uma desigualdade do desejo.

(II) Do surgimento

Obviamente, primeiro precisamos do surgimento de uma paixão, para que depois ela possa ser não correspondida. O primeiro sinal da paixão é: nos cinco primeiros minutos após acordar, você já pensou na outra pessoa.

(III) Do gosto inicial

A paixão é o desejo de algo mais do que se tem. Em essência, é fantasia. Nesses primeiros momentos, portanto, ela não tem sabor. Mas faz parte da paixão o movimento, ela irá tentar consumar seu desejo. Nesta tentativa, ou irá ser bem sucedida, ou não. Prepare-se, desta forma, para o amargo ou para o doce.

(IV) Enquanto ainda há esperanças

Adia-se a decisão de ouvir o “sim” ou “não”.
Sua vida muda. Você perde totalmente a naturalidade. Porque agora quer conquistar. Cada frase, cada gesto, tudo passa a ser pensado, calculado – isto me trará ela ou a afastará? Todo movimento é perigoso, para o apaixonado.
Inevitavelmente, as frases certas só aparecem depois que a conversa acabou.
Todo dia é um dia de histórias e movimentos.
Pior que jogo de xadrez.

(IV) Do primeiro revés

Ao primeiro sinal de um “não”, vem o desejo de fugir.
Já disse o cientista: “Quando a fuga é possível, esta resposta prevalece sobre as demais; se, por outro lado, existem condições para um ataque ao oponente, a agressão defensiva é a resposta predominante.”
Mas qual é o oponente? O “não” e suas conseqüências – o sofrimento. Não há formas de atacá-lo quando o barco parece que começará a virar.

(V) Da fuga e do amargo

Resolve-se, então, fugir, afastar-se.
Até então, lembremos, a paixão não tinha um sabor, além do primeiro fel do primeiro revés.
Mas já havia paixão, o desejo – enfim, a potência.
O afastamento trará o amargo. Fudeu!
Pois a potência virou falta. Você nem sabia que estava gostando tanto assim dela, mas a ausência te joga isto na cara, no coração.

(VI) Do retorno

Não, não, não!
Não pode ser! Mas é! Você está definitivamente apaixonado (a). Desejando a outra como nunca esteve. E foi apenas um pequeno revés. Você decide voltar a tentar.

(VII) Da cegueira

Nada será como antes. O amargo faz o desejo do doce virar urgência. É preciso agir, tentar, lutar.
Era evidente, e o primeiro quase “não” quis te mostrar isto.Havia o momento certo para correr. Não aproveitou. Quis cegar-se a isso.
Agora tudo é dúvida. O que fazer para sair desta?

(VIII) Da confusão
Neste momento, desejos diferentes se misturam.
Desejo de ter, desejo de esquecer, desejo de não se humilhar. Perdido no deserto. Cada momento age de um jeito, levado pela preponderância de um destes desejos.
Boa parte da angústia, na verdade, não é a paixão, mas só a dúvida do caminho seguro a tomar. Mas não há caminho certo, e sua ação a cada minuto é diferente. Afasta-se, volta, dá bandeira, afasta-se novamente.
Ela pensa que você está louco (a).
(E está!)

(IX) O xeque-mate

E a resposta: “não!”

(X) Da incompreensibilidade
Você não sofre porque não pode voar. Se pudesse, seria legal, mas você nunca pôde, então você nem pensa nisso.
Mas um dia você já quis alguém e já teve. Então, conquistar pessoas é algo possível.
Porém, esta você não conseguiu. Por que não, se é possível conquistar pessoas? Por que não? Por que não?
Se estivesse perdido em uma floresta, saberia que andando em linha reta chegaria a algum lugar.
Mas onde você está agora, no oco do mundo, não há caminho, não na saída, não há mesmo chão.
I`m sorry.

(Fernando César)

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A FRASE MAL DITA

Um clima e um impasse: ela tinha namorado. Aliás, o problema nem era exatamente este, já que, se a traição existe, é por haver quem traia. A questão era que, além de namorado, ela tinha o hábito de ser honesta com ele. Portanto, se algo ocorresse, ela acabaria contando ao namorado, e teríamos uma bela confusão armada.

Ótimo vislumbrar todo este desfecho, para ele, pois assim poderia evitá-lo, partindo em busca de qualquer outra coisa, que mulher é o que não falta. Porém, por uma série de acasos, ele continuou a encontrá-la, e a cada vez parecia-lhe que gostava mais dela. Talvez fosse até por esta impossibilidade, mas o que adiantaria saber quem rabiscava corações no muro se isto não traria a borracha?

Se ela se decidisse a ficar com ele, teríamos aqui um (precoce) final feliz, à maneira dos filmes: omitindo o sofrimento de quem seria abandonado para que nosso casal de protagonistas pudesse ficar junto. Contudo, acho que já disse isso: ela tinha namorado. E quando se tem um namorado, por mais que se reclame deste relacionamento, sempre é melhor que estar só, sempre é melhor que arriscar, sempre é melhor que alguma coisa, pois se fosse a pior coisa do mundo, ela não estaria ainda com ele.

Percebendo que, apesar do interesse da parte dela, talvez nada fosse ocorrer, após mais um destes encontros que já nem eram mais tão casuais assim, ele despediu-se dela dizendo “eu vou te esquecer até amanhã”, virou as costas, entrou no seu carro e partiu.

Ela caminhou para seu carro, repetindo as palavras dele em sua mente, mas a entonação que ouvia não conseguia esclarecer-lhe nem pontuação, muito menos significado do que foi dito. Pensou em umas três interpretações para a frase que ele lhe disse ao ir embora. E, naquela noite, desejou com ardor que nenhuma das três coisas se realizasse.

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