Arquivo de 6.2005

SANGUE NA BOCA

Às vezes falamos as grandes verdades, mas muitas vezes as pequenas são mais importantes. Eles decidiram falar TODAS as verdades. Isto implica xingar, quando com vontade; confessar que está carente, ou que o coração disparou antes de falar com ela; falar o que for, independentemente das conseqüências. Falar e FAZER a verdade.

Decidiram mostrar-se por inteiro. Mas isto trouxe conseqüências. Imprevistas.

Falar toda a verdade é entregar-se totalmente. Talvez por isto tantas pessoas digam que preferem que o outro diga a verdade, seja ela qual for. Mas pedir a verdade plena é escravizar o outro por completo. Retira-lhe um direito básico, talvez um dos mais importantes, o de se esconder. Desnuda o outro por completo. Mas, neste caso, não foi pedida a verdade, foi uma decisão conjunta. As pessoas dizem preferir a verdade que a felicidade. Preferir saber tudo que viver ilusoriamente. Sempre desconfio quando alguém diz isto. Quando a verdade começa a aparecer, fogem dela. Mas foi uma decisão conjunta. Só que eles não estavam totalmente preparados para a verdade. Para escutar e sobreviver a todas as pequenas verdades.

Porque aconteceu o seguinte: ao entregarem-se por inteiro, sentiram-se muito vulneráveis. Porque as outras pessoas, ao redor, mentem. Contamos cerca de 200 mentiras por dia, pequenas ou grandes. Um “bom dia” já é uma mentira. Então, ao darem toda a verdade, perceberam que passaram a parecer, ao outro, menos atraentes, mais problemáticos, que as outras pessoas. As pessoas mostram apenas o ouro, tentam esconder a terra. E eles tinham muito ouro, mas também muita terra. Terra embaixo da unha, poeira no cabelo, as solas dos pés sujas, cascão nas costas. Nada muito belo.

Surgiu então a insegurança. Dando-se tanto, veio o medo de perder, e isto trouxe a possessividade. Como nunca. Dando-se tanto, veio à tona a cobrança por algo mais, a cobrança de que o outro fosse tudo o que sempre se desejou. Mas a verdade do outro também vindo à tona, perceberam um que o outro não era bem apenas o ouro que antes aparentava. Veio a raiva. Como nunca.
Pela primeira vez surgiram grandes discussões. Pela primeira vez ela quis bater nele. Pela primeira vez, ele mandou ela ir se foder. E se afastavam, irados, até que um cedia, quebrava o gelo, engolia o orgulho. E então se amavam como se fosse a última vez.

Mordiam-se quase até arrancar o sangue do outro. E faziam juras de amor infinito.

Que durava até a próxima pequena contrariedade que um no outro provocava. Porque um não havia sido “feito para o outro”. Porque eram livres para serem si mesmos, e não queriam deixar de ser. E se irritavam com a liberdade do outro ser quem era. Sem disfarces, sem meias-verdades.

Mas toda a raiva compensava. Porque um não queria ser perdido do outro (não existe isto de “perder alguém”). E porque, masoquistamente, descobriram que as noites compensavam. A fúria transformava-se em um desejo estranho, incontrolável, e o prazer era incomparável.

Eles entregavam-se a outros desejos, com outras pessoas. Um perguntava-se qual seria a diferença do prazer que proporcionava ao outro, comparado com outras pessoas. Mas a resposta vinha do próprio desejo que experimentava com o outro, comparado com outras pessoas. Quando estavam com outros, era bom, isto é inegável. Mas era menos. Porque no dia seguinte não queriam nem saber se a outra pessoa ligou ou não, ou onde estava, com quem estava. Mas no caso dos dois, não. Um telefonema não recebido era motivo para ciúmes, irritação, para passar o dia desconcentrado, desconcertado. Era motivo, para, quando se encontravam, se atracarem em gritos e adrenalina. E depois, bem depois, dormiam juntos, agarradinhos.

Desconfio até que começaram achar isto melhor que a paz, que um relacionamento compreensivo e feliz. Insistiam em não compreender um ao outro, insistiam em querer ser tido totalmente um pelo outro (porque não existe isto de “ter alguém”). Compreendiam perfeitamente ass outras pessoas, todos os grandes defeitos, até as mentiras. Mas um não aceitava um pequeno deslize do outro. Escravizaram-se nesta vida. Voluntariamente. E, como disse, desconfio que intencionalmente. Viciaram-se na luta. No fundo sabiam que era uma luta inútil. Sabiam que não conseguiriam um mudar o outro, nem mesmo aceitá-lo. Sabiam que passariam a vida com ciúmes, sabiam que o outro não cederia. Mas, de certa forma, nem desejavam mesmo isto. Acabaria a graça. A guerra fazia mais sentido. Como qualquer guerra, dispensável. Como qualquer guerra, indispensável.

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