Arquivo de 10.2004

EU E EU MESMO

Eu estava na sala, um pouco entediado, quando ela chegou. Eu escutava um CD de britpop, quase dormia. Eu não a conhecia.
Era colega de turma da minha irmã, as duas chegaram juntas. Cansaram-se do bar e foram para nossa casa, chegaram com algumas cervejas.
Minha irmã nos apresentou:
- Esta é a sua xará.
- Fernanda? – estendi a mão em sua direção.
- Fernando?
Rimos desta besteira, e beijos no rosto. Sentei-me novamente.
- O que é isso que você está escutando?
- Ah, é um CD que gravei tem um tempo, uma coletânea… – falei meio que cortando o assunto, achei que ela estava perguntando só por perguntar, já que minha irmã havia ido ao banheiro.
- Mas que banda é? Bonita esta música!
- Doves.
- Não conheço não…
- Só tenho umas três músicas deles.
- São de onde?
Quando ela me perguntou isto, me ajeitei no sofá. Até então eu estava respondendo só por responder, já que minha irmã havia ido ao banheiro.
Olhei de verdade para ela. Fernanda tinha os cabelos castanhos escuros, longos, um pouco ondulados. Bonita. Usava um vestido com temas florais.
- Não sei de onde são…
- Você conhece Ocean Colour Scene?
Com o controle remoto coloquei na música 7. Ela sorriu e começou a cantar.
Minha irmã chegou.
Saí da sala. Fui para meu quarto. Eu já sabia o que aconteceria.

Passei cerca de três horas deitado, aguardando apenas o sinal: que o som fosse desligado (minha irmã é que comandava o aparelho, então). Só meu ouvido estava funcionando em mim, eu lia uma revista velha mas não conseguia me concentrar. Quando chegou o sinal, me levantei. Minha irmã se preparava para levá-la.
- Deixa que eu levo a Fernanda.

No carro ela me perguntou:
- Você já teve vontade só de beijar uma pessoa?
- De beijar só uma?
Rimos.
- Não, só de beijar! Achei, claro, que ela queria me beijar.
- Acho… acho que…
- Você é psiquiatra, não é?
- Sou.
- É que eu estava pensando, talvez você saiba…
- Não ensinam nada sobre beijos no curso de Psiquiatria!
- Tá bem. É por causa de uma música que eu estou na cabeça. A tradução é mais ou menos assim: “Acordei com muita vontade de te beijar, só beijar.”
- Eu acho que eu nunca beijei ninguém. Assim, só beijar.
- Acho que eu também não.
- Já beijei querendo transar.
- Eu já beijei pro cara parar de me encher o saco.
- Cara de sorte, boa tática!
- Ah, pára. Deve ser horrível pra ele.
- É…
- Mas eu queria te perguntar era por que é que, assim… O que significa beijar? Beijar. Beijar alguém.
- Eu já li um livro de um psicanalista que fala que o beijo é uma simulação do ato sexual, um sexo que a gente pode fazer em público. Mas, sei lá, tou falando o que eu li, nunca pensei nisto não.
- Não tem muita lógica. Por exemplo, se a gente quisesse transar agora, a gente poderia. E por que é que eu… Olhei para ela.
- Olha pra frente, Fernando!

Continuei dirigindo, ela não falou mais nada.
- De quem é esta música que você falou?
- Não sei.
- Talvez beijar seja, seja uma coisa diferente mesmo. Assim, se você quer ir pra Curitiba, tem que passar por São Paulo, saindo daqui. Pra transar tem que beijar. Mas talvez beijar seja resolver ir para São Paulo. Ela riu.
- Que comparação…
- Nem eu sei de onde veio esta idéia.
- Deve ser porque os motéis ficam na saída pra São Paulo! Eu ri muito.
- Não, eu não tinha pensado nisto.
- Eu tinha.

- Olha pra frente, Fernando!

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