Arquivo de 8.2004
LAMPEJOS
Publicado por admin em Sem categoria às 13 de Agosto de 2004
Do nada surgiam as idéias. Otávio é escritor, e tudo que lhe acontece pensa em transformar em histórias. Algumas escreve literalmente, mudando apenas os nomes das pessoas envolvidas. Outras vezes pega apenas uma frase e à partir dela cria um enredo. Porém em muitas ocasiões uma idéia pipocava em sua mente sem motivo visível, e estava sempre a anotar algo em seu inseparável caderninho.
Joaquina já estava de saco cheio disto. Porque não importava o que ele estivesse fazendo, se tinha uma idéia parava tudo para anotá-la. Na maioria das vezes não fazia apenas isto: escrevia a história inteira.
- Meu amor, se eu deixar passar, vai embora, nunca mais volta. Já perdi lampejos incríveis por causa disto.
- Só não sei escrever pra quê. Você nem vive disto, tem seu emprego, ganha bem.
- Você não entende. Inspiração é algo que vem e não te larga. Martela na cabeça até sair, despejar no papel. Só depois eu posso relaxar, pensar em outras coisas.
- Em outras idéias, né, Otávio Brichese?
Ela se irritava cada vez mais com isto: se estavam conversando no restaurante:
- Peraí, Joaquina, que eu tive uma idéia para um conto.
Se estavam viajando era pior, parece que a tal da “Inspiração” era sua amante a tentar roubá-lo de Joaquina. Em frente ao mar, os dois, e ele pegava o bloco e começava a rabiscar.
A gota d`água foi quando ele interrompeu uma transa porque teve “uma ótima idéia”. Desta vez ela o colocou contra a parece. Ele prometeu não fazer mais isto.
Mas um dia ele teve uma idéia fenomenal. E estavam novamente transando. Ele sabia que se não parasse naquele momento para escrever, esqueceria. As melhores histórias eram as perdidas. A idéia que ele teve e queria escrever era a seguinte: um sujeito é escritor e tem uma namorada, um dia ele tem uma idéia fenomenal no meio de uma transa e teria que parar tudo para escrevê-la, só que ela o abandonaria por causa disto; então, ainda transando, ele resolveria largar o ofício de escritor, para dedicar-se a ela.
Mas… E agora? Era uma idéia muito boa, pensava. Precisava escrever isto. Apelaria para a compreensão dela.
- Joaquina… (com cara de pidão).
Ela fechou a cara, já sabia o que vinha.
Joaquina levantou-se, pegou as roupas e foi embora sem dizer nada. Ele sabia que ela não voltaria nunca mais. Subitamente entristeceu-se muito.
Mas um lampejo veio de repente e o fez sorrir:
- Que idéia! Vou fazer um conto sobre um escritor que tem uma grande idéia no meio de uma transa, e resolve parar para escrevê-la. Nisto, a namorada fica grilada e larga ele. Ele a princípio fica triste mas depois pensa: já sei, vou escrever um conto sobre isto! Irá se chamar “Lampejos”.
CONCEITOS MODERNOS
Publicado por admin em contos, relacionamentos às 7 de Agosto de 2004
Passei na casa de Renata para buscar meus livros. Estávamos há quase um ano juntos, e aos poucos sua casa passou a ser a minha.
Na ânsia de partir levei apenas minhas roupas limpas. Retornei algumas semanas depois, quando os ânimos já estavam mais calmos, das duas partes. Buscar as roupas e, mais importante, quase minha biblioteca inteira que, de 2 em 2, 3 em 3, foi transferida para sua cômoda. Coleção relativamente pequena, sim, mas não sou de ler muitos livros diferentes. Leio poucos e bons. Várias vezes.
Falava de um livro para Renata, ela se interessava, eu lhe emprestava. Falava justamente para que ela se interessasse. Fazia ela ler o que eu queria. Uma das melhores formas de se moldar uma pessoa é esta, pois é sutil, indireta: jogue os livros certos em suas mãos. Talvez isto não seja muito ético. Qualquer dia penso nisto.
Renata foi ficando como eu queria, mas um dia me cansei dela. Vai ver foi esta a razão. Qualquer dia penso nisto.
Coloquei-os em uma caixa, e depois no porta-malas do carro.
Parei na casa da Madalena. Subi com dois livros.
- Aqui os livros que você pediu.
Todo profissional sabe que hoje em dia o importante é a educação continuada.
baskara
Publicado por admin em contos, relacionamentos às 2 de Agosto de 2004
Há coisas que poucas mulheres sabem, e nenhuma deveria saber. Uma delas é que no meio da transa os homens ficam pensando em outra coisa.
Não que eles se desinteressem da mulher no meio do percurso. É o contrário: vontade demais! Os ejaculadores precoces são massacrados pela psicologia, que às vezes afirma que eles gozam logo porque na verdade queriam é nem estar transando. E mesmo os homens que demoram mais, demoram voluntariamente, têm que fazer algum esforço para isto. Se uma mulher chegar para um homem e disser: hoje é seu dia, não precisa me esperar, em 5 minutos ele resolve tudo (ai, que dia feliz!). Porque as preliminares masculinas se dão durante o dia todo, em sua imaginação. Ele já está pronto.
É inegável que há mulheres que demoram mais, pois se o mesmo sujeito consegue satisfazer uma em alguns minutos, e outra demora horas, a culpa não é dele. Porém, se ele é generoso, espera por ela. Só que, para isto, ele tem que constantemente desviar sua atenção do que está acontecendo ali na cama, caso contrário o fim imediato seria inevitável.
Há mulheres que achariam um desrespeito o homem ficar pensando em alguma outra coisa enquanto transam. Não só por ele estar com a cabeça longe, mas por ao mesmo tempo estar fingindo que está presente, com gemidos e palavras, para ela não sair do clima.
Os homens não consideram assim: eles sabem que estão fazendo isto é por elas. Que seria frustrante, um prazer pela metade, se só ele gozasse. Bem, alguns não, querem vê-las felizes apenas para sentirem-se os tais.
Cada homem desenvolve sua técnica de distração. As mulheres não deveriam saber disto. Vão ficar pensando na hora H “no que ele estará pensando?” enquanto ele alisa seus seios.
Conheço os que tentam se lembrar da escalação da Seleção Brasileira de 1968. um pensa em crianças correndo em um jardim florido. Os que pensam nas contas a pagar: nada mais broxante. Um risco é este: o homem tem que desviar sua atenção, mas não muito, caso contrário não há retorno. É um jogo tenso entre pensar, voltar, pensar, voltar. Este é o verdadeiro “vai e vem” masculino.
Arnold tem uma tática diferente: ele pensa na fórmula de Báskara. Aprendida na escola, o terror da matemática infantil diz que, se temos uma equação do segundo grau, como “3x ao quadrado menos 2x mais 7 é igual a três”, a solução é dada pela fórmula “x é igual a menos b mais ou menos a raiz quadrada de b ao quadrado menos 4 vezes a vezes c, tudo isto dividido por duas vezes a, onde a, b são respectivamente os números que antecedem o x ao quadrado e o x, e c o outro número, desde que se iguale a equação a zero.” Com isto obteremos dois valores para x. A soma destes dois valores é igual a menos b dividido por a, o produto é igual a c sobre a.
Arnold faz assim: pensa em dois números quaisquer, como 2 e 3. Com estes números recria a equação original, e com esta, tenta resolvê-la para ver se chega aos mesmos números: 2 e 3.
Só que Arnold foi pegando prática, e então cada vez foi ficando mais fácil resolver as contas. Passou a utilizar números maiores: 4 e 9, 7 e 12.
Novamente ficou fácil. Passou a utilizar os números negativos. Menos 3 e menos 8. Menos 12 e menos 16.
Algum tempo depois começou a tirar de letra (ou “de número”?).
Uma noite percebeu que não iria conseguir segurar por muito tempo, era aniversário de namoro, queria que Simone saísse satisfeita.
Tentou com dois números enormes, precisava desviar urgentemente a atenção daquele corpo delicioso sobre o seu.
Menos 78 e menos 84!
Se a soma é menos b sobre a, b é igual a menos 162. O produto é… 6552.
X ao quadrado menos 6b, mais 6552, igual a zero.
X, então, é menos 162, mais ou menos raiz de 26244 menos, menos 4 vezes 6552, o que dá…
Ai, que bom, faz assim, amor…
26208!
Apertou os mamilos dela, como ela gostava.
26244 menos 26208 igual a 36, raiz 6. Logo, a resposta é menos 78 e menos 84!
Então do nada Arnold gritou “Eureka!” e Simone na mesma hora pulou de cima dele, assustada.
Não houve como explicar. Não foi bem a comemoração de aniversário de namoro mais feliz da vida de Simone…