Arquivo de 7.2004
Publicado por admin em contos, relacionamentos às 29 de Julho de 2004
Sinto muito: resolvi dar prosseguimento à Aurélia (série que se iniciou aqui). Algumas pessoas deram algumas sugestões interessantes mas não gosto de usar as idéias alheias. Vou colocar logo duas outras variações que me surgiram estes dias; pensei outras mas não estou com vontade de escrever, cansei dela. Prometo nunca mais falar de Aurélia, e daqui a uns 3 dias coloco outra coisa.
Antes, queria dizer de uma coisa que me surpreendeu: a reação machista generalizada. Especialmente das mulheres! Só uma pergunta: e se fosse Aurélio? Todos ficariam tão indignados com ele?
AURÉLIA NÃO PODE TRAIR (5)
NEGOCIAÇÕES
Sentados no sofá.
- Não aceito! – ele impõe com veemência.
- Mas… nem só 2 vezes por mês?
Tapa na cara. É jogada contra o encosto do sofá.
Ela ainda tenta um argumento:
- Como um prêmio, se eu me comporto bem, a cada 2 semanas eu tenho um dia de folga.
Tapa na cara de novo.
Mais uma tentativa:
- E se…
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AURÉLIA NÃO PODE TRAIR (6)
Aurélia não quer perdê-lo. “Amo demais este rapaz”, é o que costuma repetir. Para isto, está decidida a manter-se fiel.
Tomou a situação como um desafio: não só vou parar de trair como vou parar de fumar. Segunda-feira.
Claro, no domingo ainda ligou para um garoto de programa e com ele fumou seu último cigarro. Dormiu.
Segunda-feira foi horrível, desde a hora que acordou. Um mau-humor transmissível.
Terça foi pior, sentiu as duas abstinências. Vontade de chorar, de xingar, de desistir. Os objetivos lembrados a salvaram.
Quarta-feira ela recebeu uma cantada irrecusável. Recusou. Quando o galã saiu de seu escritório, ela acendeu um cigarro.
Neste dia ela percebeu que gostava mais de cigarros que de homens.
Então terminou o noivado.
Agora é a nova namorada de Aurélia quem sofre com ciúme de todas as outras mulheres.
Publicado por admin em contos, relacionamentos às 24 de Julho de 2004
O texto a seguir é o último de uma série de 4 variações sobre o mesmo tema. O miolo da história é bastante semelhante ao segundo, mas o desenvolvimento é diferente. Sugiro antes a leitura do primeiro, aqui, mas os textos funcionam também de maneira independente.
AURÉLIA NÃO PODE TRAIR (4)
(Obrigado, Debs, pela inspiração involuntária)
UMA PALAVRA
O colega vem de novo, não, não vem não, pelo amor de Deus, você não imaginaria o mal que vai me fazer.
- Se eu pudesse…
- Anh?
- O que?
- Você nunca respondeu isto. Só vim aqui receber meu “não” semanal.
- Hoje é diferente. Hoje é porque não posso mesmo.
- Por que não?
- Agora eu tenho namorado. E não quero traí-lo. E nem mentir. Eticétera. Só por isto.
- Vem cá.
Ela sentiu um leve frio no ventre.
Foram para uma sala, isolados.
- E se você pudesse?
- O que que tem?
- E se você pudesse? O que a gente faria?
- Ah, não sei.
- Tenta imaginar.
- A primeira coisa era trancar esta porta.
- Seria aqui?
- Por que não?
- E quem tomaria a iniciativa?
- Você não é cavalheiro não?
- Eu ia desabotoar sua blusa.
Nenhum fazia cara de prazer ou satisfação. Mantinham o diálogo como se estivessem nas tediosas reuniões semanais. Mas dentro de suas roupas algo se movia, para cima, para a frente, as partes suplicando o encontro não permitido.
Ela acendeu um cigarro.
- Eu estou de sutiã. Preto.
- Eu sei. Eu ia deixar ele aí. Por enquanto. Eu ia desabotoar sua saia, abrir o zíper, descer devagar.
- Devagar?
- Eu iria aproveitar o momento. Quantas vezes eu já te quis de novo!
Ela tragou novamente. Sentia-se úmida. Escorou na mesa.
- Eu estou com uma calcinha preta.
- Transparente?
- Não.
- E eu ia então descer com minhas mãos pelos lados das suas coxas.
- Eu iria deitar nesta mesa.
Sentou-se na mesa. Deu mais um trago. Continuavam mantendo a face de que conversavam como se falassem de qualquer outra coisa, menos de sexo. Ela não podia trair seu namorado, dar um suspiro de prazer seria culpável. Seria dar. Ela não podia dar nada a ninguém, este é o verdadeiro sentido da palavra “dar”.
- Eu iria tirar minha roupa. Desesperado.
Ela riu. – Desesperado! E fechou o semblante novamente.
- E ia arrancar sua calcinha.
- Minha xavasca iria estar molhada.
- Xavasca?
- É. “Xavasca”, “testa”, nunca ouviu isto não?!
Ele sentiu um sentimento murchar: – Vamos voltar pro trabalho, Aurélia? A gente tem muita coisa pra fazer ainda…
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Publicado por admin em contos, relacionamentos às 21 de Julho de 2004
O texto a seguir é o terceiro de uma série de 4 variações sobre o mesmo tema. Sugiro antes a leitura do primeiro, aqui, mas os textos funcionam também de maneira independente. O início deste é o mesmo do segundo (afinal, são variações!), o desenvolvimento não. Colocarei o último daqui a 3 dias.
AURÉLIA NÃO PODE TRAIR (3)
Aurélia não pode traí-lo. Gosta dele, quer ficar com ele, mas sabe que seu namorado não aceitaria que ela fizesse sexo com qualquer outro, por mais insignificante que isto fosse para ela, depois de feito. É só carne, só fisiologia, mas vai fazer ele entender isto. Por que não trair escondida? (Aliás, traição declarada é traição?) Não fazia isto porque queria ter um relacionamento verdadeiro. Não fazia isto por achar que mentir é desrespeitar.
Pior ainda seria dar uma de Bill Clinton: negar até o fim, e quando descoberto, exclamar surpresa: “Ah, eu não sabia que sexo oral é sexo…”. Era mulher demais para ser tão cínica. O namorado tinha deixado claro, pôs a mão é traição, beijou é traição, colocou então… Não gosto nem de pensar numa coisa destas.
Ela trabalhava com um cara com quem ela já havia transado uma vez, há bastante tempo, e depois disto nunca mais tiveram nada. Quando ele estava sem o que fazer a assediava, mas ela não esteve mais a fim, não era de ficar repetindo. Gostava era de conhecer a ampla fauna dispersa nas ruas, nos shoppings, nos bares, até mesmo nas borracharias.
Se eu tivesse um pau eu diria que fui castrada.
A proibição, não, não era proibição, era escolha dela, mas a proibição parece ter transtornado seu sistema. Gente que ela nunca desejaria passou a ficar até interessante, os que gostaria de ter passaram a ficar quase irresistíveis (quase!) e quem já tinha caído nas suas graças, nas suas coxas, voltou a ter o encanto do novo.
Sua vida era um, e fora disto tudo era impossibilidades.
O colega vem de novo, não, não vem não, pelo amor de Deus, você não imaginaria o mal que vai me fazer.
- Se eu pudesse…
- Anh?
- O que?
- Você nunca respondeu isto. Só vim aqui receber meu “não” semanal.
- Hoje é diferente. Hoje é porque não posso mesmo.
- Por que não?
- Agora eu tenho namorado. E não quero traí-lo. E nem mentir. Eticétera. Só por isto.
- Vem cá.
Foram para uma sala, isolados. Ele fechou a porta. Girou a chave.
- Se eu resolver fazer à força com você, o que você pode fazer?
- Nada…
- É culpa sua?
- Não…
- Mas você é honesta com ele.
- Mas se eu contar isto para ele, que você me obrigou, ele vai te matar. Te matar mesmo, com revólver. Não acho que a verdade vale uma vida.
- Você não tem escolha…
- Não.
O livre-arbítrio é uma farsa.
# # #
Publicado por admin em contos, relacionamentos às 18 de Julho de 2004
O texto a seguir é o segundo de uma série de 4 variações sobre o mesmo tema. Colocarei um a cada 3 dias. Sugiro antes a leitura do primeiro, aqui, mas os textos funcionam também de maneira independente.
AURÉLIA NÃO PODE TRAIR (2)
Aurélia não pode traí-lo. Gosta dele, quer ficar com ele, mas sabe que seu namorado não aceitaria que ela fizesse sexo com qualquer outro, por mais insignificante que isto fosse para ela, depois de feito. É só carne, só fisiologia, mas vai fazer ele entender isto. Por que não trair escondida? (Aliás, traição declarada é traição?) Não faz isto porque queria ter um relacionamento verdadeiro. Não faz isto por achar que mentir é desrespeitar.
Pior ainda seria fazer como o Bill Clinton: negar até o fim, e quando realmente descoberto, exclamar surpresa: “Ah, eu não sabia que sexo oral é sexo…”. Era mulher demais para ser tão cínica. O namorado tinha deixado claro, colocou a mão é traição, beijou é traição, se fez mais então… Não gosto nem de pensar numa coisa destas.
Ela trabalhava com um cara com quem ela já havia transado uma vez, há bastante tempo, e depois disto nunca mais tiveram nada. Quando ele estava sem o que fazer a assediava, mas ela não esteve mais a fim, não era de ficar repetindo. Gostava era de conhecer a ampla fauna dispersa nas ruas, nos shoppings, nos bares, nos supermercados.
Se eu tivesse um pau eu diria que fui castrada.
A proibição, não, não era proibição, era escolha dela, mas a proibição parece ter transtornado seu sistema. Gente que ela nunca desejaria passou a ficar até interessante, os que gostaria de ter passaram a ficar quase irresistíveis (quase!) e quem já tinha caído nas suas graças, nas suas coxas, voltou a ter o encanto do novo.
Sua vida era um, e fora disto tudo era impossibilidades.
O colega vem de novo, não, não vem não, pelo amor de Deus, você não imaginaria o mal que vai me fazer.
A resposta dela: – Se eu pudesse…
- Anh?
- O que foi?
- Você nunca respondeu isto. Só vim aqui receber meu “não” semanal.
- Hoje é diferente. Hoje é porque não posso mesmo.
- Por que não?
- Agora eu tenho namorado. E não quero traí-lo. E nem mentir. Eticétera. Só por isto.
- Vem cá.
Ela sentiu um leve frio no ventre.
Foram para uma sala, isolados.
- E se você pudesse?
- O que que tem?
- E se você pudesse? O que a gente faria?
- Ah, não sei.
- Tenta imaginar.
- A primeira coisa era trancar esta porta!
- Seria aqui?
- Por que não?
- E quem tomaria a iniciativa?
- Você não é cavalheiro não?
- Eu ia desabotoar sua blusa.
Nenhum fazia cara de prazer ou satisfação. Mantinham o diálogo como se estivessem nas tediosas reuniões semanais. Mas dentro de suas roupas algo se movia, para cima, para a frente, as partes suplicando o encontro não permitido.
Ela acendeu um cigarro.
- Eu estou de sutiã. Preto.
- Eu sei. Eu ia deixar ele aí. Por enquanto. Eu ia desabotoar sua saia, abrir o zíper, descer devagar.
- Devagar?
- Eu iria aproveitar o momento. Quantas vezes eu já te quis de novo!
Ela tragou novamente. Sentia-se úmida. Escorou na mesa.
- Eu estou com uma calcinha preta.
- Transparente?
- Não.
- E eu ia então descer com minhas mãos pelos lados das suas coxas.
- Eu iria deitar nesta mesa.
Sentou-se na mesa. Deu mais um trago. Continuavam mantendo a face de que conversavam como se falassem de qualquer outra coisa, menos de sexo, de desejo. Ela não podia trair seu namorado, dar um suspiro de prazer seria culpável. Seria dar. Ela não podia dar nada a ninguém, este é o verdadeiro sentido da palavra ¿dar¿.
- Eu iria tirar minha roupa. Desesperado.
Ela riu: – Desesperado! E novamente ficou séria.
- E ia arrancar sua calcinha.
- Minha xaninha tá molhada.
Imediatamente se recompôs do ato falho: – Quer dizer, iria estar molhada.
Ele riu: – O meu pau iria estar duro, pulsando.
- Pra que?
- Pra eu chegar perto de você, te puxar até a beirada da mesa, e enfiar ele bem devagar em você.
Ela sentia-se fraca, carente, maravilhosa, vagabunda, podre, escrota, molhada, contraindo, mastigando o que não estava dentro dela.
Mas ela não pode nem vai trair seu namorado. Mantinham-se imóveis. Nem os olhos se mexiam, fixos uns nos outros, e nenhum não chegava mesmo a ver as reações do corpo do outro.
- E?
- E ia segurar nos seus peitos, e ia e voltava bem gostoso dentro de você…
- De mim?
- Da sua xoxotinha.
Ela deu mais um trago. O rosto impassível. Comentou com a voz um pouco mais macia:
- Eu iria gozar. Como poucas vezes gozei antes. Ia ser inacreditável, de tão bom.
- Eu também iria gozar…
Ficaram em silêncio depois disto. Quando o cigarro acabou, ela então olhou para o cinzeiro, depositou o toco, olhou novamente para o colega.
- Mas eu não vou trair meu namorado…
Sorriu, piscou para ele, saiu.
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