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UMAS MULHERES: CAPITU, OLHOS DE CIGANA OBLIQÜA E DISSIMULADA
Publicado por admin em Capitu, minissérie às 8 de Setembro de 2003
Capitu, olhos de cigana oblíqüa e dissimulada
Tenho falado aqui sobre umas mulheres que conheci e outras que inventei. Mas hoje eu queria falar sobre uma que de certa forma existe e não existe. Uma personagem de livro. Embora ao falar dela eu esteja falando também de gente que convivi. Capitu, do “Dom Casmurro” (Machado de Assis). Deve ser um dos livros brasileiros mais lidos de todos os tempos, posto que sempre cai no vestibular. Mas nesta época a gente lê por obrigação e certamente isto deforma as impressões.
Tenho relido alguns livros, esta semana reli Dom Casmurro. Para quem não leu ou não se lembra, tentarei resumir 184 páginas em poucas linhas: desde criança Capitu e Bentinho (Dom Casmurro) se conheciam, se apaixonam na adolescência e casam. Bentinho tem ciúmes dela, e desde criança já a achava muito esperta. Quando seu filho nasce, Bentinho passa a achar seu filho muito parecido com o seu melhor amigo. Manda esposa e filho para a Europa. Rejeita o filho e Capitu morre por lá, negando até o fim a traição.
O foco das interpretações do livro sempre foi a capacidade de Machado ter mantido o mistério indecifrável. Pois a semelhança de filho e amigo poderia ser uma paranóia. Na psiquiatria existe o “delírio de ciúmes”, que é a crença de estar sendo traído sem qualquer base de evidência. O que esclareceria se seria apenas algo de sua cabeça seria uma outra pessoa ver seu filho, Ezequiel, e dizer se parece ou não com o amigo. Só que machado foi astuto. Quando seu filho vem o visitar, da Europa, não encontra ninguém que conhecia também o amigo do pai (Escobar). E o “mistério” permanecerá para sempre nas páginas do livro. E não é para haver resposta. Isto acabaria com o livro. Que se tornaria a história de uma traição ou, ao contrário, a de um delírio de ciúmes. Mas a história do livro não é uma ou outra coisa: é a de um homem que com base apenas em sua crença manda embora um mulher que ele era perdidamente apaixonado, sempre foi. “Quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita. Os cabelos grosso, feitos em duas tranças. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, a boca fina”. Seus olhos foram definidos por um parente de Bentinho como de cigana “obliqüa e dissimulada” (“aqueles olhos que o diabo lhe deu…”). Para Bentinho seus olhos eram de “ressaca”. Não a ressaca de uma bebedeira, claro, mas a ressaca do mar, aquela onda mole que te puxa, te agarra e te afoga. “Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me”. (Eu queria colocar uma foto aqui representando Capitu, mas não posso, pois a mulher que eu encontrar que tenha os olhos de ressaca possivelmente os tenha apenas pra mim – que cada um busque na memória aquele olhar.)
Este livro foi publicado em 1899. Mil OITOCENTOS e noventa e nove. Mais de cem anos. As mulheres que hoje nascem acham que o mundo sempre foi assim, mas uma época houve em que o mundo aparentemente era dos homens. Não sei como o livro foi recebido e lido na época, mas creio que a maioria deve ter lido como se ela tivesse realmente traído e merecesse o que mereceu. Até mesmo porque na época eram mais os homens que tinham acesso à leitura e, talvez, até mesmo proibíssem suas esposas e filhas de lerem livros “assim”, para não caírem “na tentação e no vício”. Posso estar dizendo uma grande besteira, mas pelo que entendi do prefácio da edição que possuo, foi em 1960 que surgiu enfaticamente esta leitura da dúvida, de ter traído ou não. Não seria coincidência a época (anos 60 e a revolução sexual e feminista) e o fato do artigo que defende esta leitura ter sido escrito por uma mulher.
Desde então a questão girou em “traiu ou não” e o decorrente e “natural” julgamento da atitude de Bentinho em “agiu corretamente” ou “foi injusto”.
Eu penso um pouco diferente: independentemente dela ter ou não traído, acho que ele foi injusto. E mais: estúpido!
O apelido de “Dom Casmurro” Bentinho ganhou por ter se tornado uma pessoa fechada, reclusa. Não que tenha vivido deprimido – superou. Mas alegre também não foi. “Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá, mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.” E nunca a esqueceu. “Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração?”
Por que acho que foi injusto? Porque Bentinho também mentia. Dissimulava. Pensou em traçar a mulher do amigo. Certo que a época era outra. Porém o adultério masculino nunca foi legalizado, e muito menoso direito excusivo de mentir.
Sim, Capitu era muito mais esperta. O primeiro beijo, por exemplo, quase resultou em flagrante, mas: “Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitu recompôs-se depressa, tão depressa que, quando a mãe apontou à porta, ela abanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhuma contração de acanhamento, um riso espontâneo e claro.” . Já Bentinho… “calado, enfiado, cosido à parede”. Quis falar para disfarçar seu estado, “chamei algumas palavras cá de dentro, e elas acudiram de pronto, mas de atropelo, e encheram-me a boca sem poderem sair nenhuma.”. E assim a personalidade astuta dela se demonstrou em várias outras situações.
Claro fica, no livro, que Bentinho não era a santidade em pessoa. Fingia, mentia. Capitu também. A diferença é que ela sabia mentir, ele não (ainda hoje é assim, as mulheres “sabem fazer”, “quando fazem – fazem bem feito” etc). Isto foi a pólvora para detonar a confiança de Bentinho nela: como saberemos, ao lidarmos com uma pessoa que diz a mentira com a mesma face que é honesta, quando saberemos o quê é o quê?
Bentinho tinha então razões lúcidas para desconfiar. Mas porque ela poderia estar mesmo mentindo é justificativa plausível para expulsá-la? Primeiramente, desconfiança nunca foi prova. Segundo, quando a dissimulação lhe interessava, exemplo, quando eram jovens e fingiam não namorar, ele achava nisto graça e virtude (“Estava tão contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada.”). Terceiro que Bentinho não era santo. Se não mentia tanto a ela, pois isto não é dito no livro, dizia pequenas ou grandes mentiras à outras pessoas e, repito, chegou a pensar em ter com a esposa do amigo (“Um fluido particular me percorreu todo o corpo. Foi um instante de vertigem e pecado”) – nada teve, provavelmente porque no dia seguinte à estes pensamentos Escobar morre afogado e a viúva se afasta do convívio deles.
Estes são motivos racionais para chamar Bentinho de injusto. Capitu nega, chora, e ela poderia estar derramando lágrimas pérfidas. Mas prova ele nunca teve.
Mas quero ir um pouco mais além. Suponhamos a certeza. Um dia Bentinho achasse um bilhete nos papéis de Escobar, escrito por Capitu, agradecendo pelos prazeres da noite anterior. Bentinho sofreria, muito, claro. A paixão quer exclusividade! E iria querer mata-la (no livro, chega a querer suicidar, depois pensa em envenenar Ezequiel, mas se arrepende) , abandoná-la, vê-la sofrendo. Mas e depois? Não digo das conseqüências menores, como a prisão etc. Digo da conseqüência que ele acabou por realmente sofrer: a solidão e a amargura. E Capitu lhe escrevendo da Suíça… “Eram cartas submissas, sem ódio, acaso afetuosas; pedia-me que a fosse ver.”. Ele nunca foi. Valeu a pena? Se é uma mulher qualquer, concordo que seria difícil justificar ser um “corno manso”. Para que continuar com uma mulher comum e mentirosa? Mas não, era Capitu. A mulher diferente das outras, a única que ele gostou, a única que viria a gostar. A única que tinha os olhos de ressaca. A mulher que tenha os olhos de ressaca é a única. Não haveria de ser um perdão com racionalizações, tipo: “Todas as pessoas têm mesmo desejos por outras, e se mentiu foi para não me perder, pois gosta mais de mim que dele.”. Bentinho foi todo, estúpido. A única solução feliz seria o perdão do coração, aliás não seria nem o perdão, mas a resignação, posto que perdoam-se erros, e quem disse que Capitu errou? Aceitar que fora daquele mar ressaqueado nada mais faz sentido.
(PS: eu bem sei porque defendo aqui Capitu – óbvio que também ela me sugou – não apenas esta Capitu, mas me lembro especificamente de uma Capitu maliciosa, astuta, preparada para a maldade, artificiosa, sagaz, esperta, aleivosa, pérfida. E isto ainda era apenas uma criança! Mas quando era manhosa… Como uma gata ronronado… A única diferença é que não eram olhos grandes, eram miúdos e suplicantes. Existem mares azuis, verdes ou escuros. Mas a ressaca é a mesma.)