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O TERCEIRO ELEMENTO

(provável Capítulo 1 do livro)

O Gênesis nos leva a reflexões curiosíssimas. O homem é criado, alguns parágrafos depois nasce a mulher. Logo esta come o fruto proibido e ambos são enxotados do Paraíso. Continuaram suas vidas, tiveram filhos, e pronto, a história deles acaba aí. Não é curioso que a história do primeiro homem a pisar a terra seja apenas isto? Se tempo tivesse, eu escreveria uma biografia de Adão. Porque não é possível que este homem, sendo já como seríamos hoje, não se pusesse a refletir sobre sua vida. Que crises existenciais deve ter passado, então! Por que Deus me criou? Para quê? Por que só eu? Por que, sendo tão poderoso, não me fez capaz de prevenir meus erros? Etc.

Também é intrigante a ausência de mais relatos sobre o casal. E não é por questão de espaço, pois mais adiante a Bíblia se perde em relatos absolutamente tediosos e desnecessários. Desnecessários? Se a Bíblia emana diretamente do desejo divino, não seriam. Deus não se preocuparia com futilidades. Nem deixaria de fora de Seu livro uma história importante, cinco páginas a mais pouca diferença fariam. Donde se conclui que, se a Bíblia nada fala sobre Adão e Eva é porque nada havia a dizer.

Expulsos foram do Paraíso, mas no paraíso conjugaram continuaram. Nem mesmo uma briga após a expulsão, Adão apontando o dedo para Eva e com ela gritando, “Você é uma estúpida, não deveria ter feito isto!”, ela, ainda mais alto, “Mas você também comeu, comeu porque quis!”. Nada disto. Passam por toda a eternidade sem discutir a relação, sem brigar, sem se separarem.

Por quê?

Suponho que seja basicamente por causa da inexistência do terceiro elemento: não havia outro homem, não havia outra mulher. Não havia, portanto, concorrência, egos a serem feridos.

Tanto que quando surge a primeira concorrência, imediatamente temos também o primeiro homicídio.

Caim e Abel, filhos de Adão e Eva, protagonizam a primeira cena de ciúme da história. Quando Deus olhou (isto é, admirou) Abel e seus dons, e apenas os dele, Caim “irou-se extremamente”. Deus percebe e sermaniza a Caim: “Sob ti está o seu desejo, e tu o dominarás”. Insuficientes palavras, e já pela segunda vez que percebemos que a persuasão não era um dos dons divinos: Caim prepara uma emboscada para o irmão e o mata.

Pois bem, Caim e Abel eram homens e aí já estava a inveja, o ciúme, a raiva. Tudo gerado pela concorrência criada pelo amor de Deus, que, inexplicavelmente, foi partidário e olhou apenas para os dons de Abel, enquanto Caim também os tinha, conforme a Bíblia nos conta.

Problemas semelhantes entre pessoas de sexo diferente irão aparecer apenas alguns parágrafos (e séculos) depois, com Abrão, filho de Taré, que foi gerado de Nacor, que foi gerado de Sarug etc., chegamos a Sem, pai dos semitas, filho de Noé, que era filho de etc., chegando a Set, esquecido filho de Adão e Eva.

Fato notável é que a Bíblia geralmente nomeia apenas os filhos homens. Após Set, Adão “gerou filhos e filhas”. Caim teve filhos também. Com quem?! Com uma irmã? Teríamos aí o primeiro incesto? Ou Deus teria criado, após Adão e Eva, mais algumas pessoas, sobressalentes? Mistérios divinos.

Um dos descendentes de Caim, Lamec, herdando seus genes ávidos, “tomou duas mulheres, uma chamada Ada, e outra Sela”. Mas nem a poligamia inaugural parece ter gerado muitos problemas, nada se fala sobre. Talvez Lamec tratasse as duas de forma igual.

Voltemos a Abrão, lá é que a disputa aparecerá pela primeira vez, de forma clara. A terra onde vivia Abrão foi abatida pela fome, e ele resolve partir para o Egito. Perto de chegar ao país, disse a Sarai, sua mulher: “Conheço que és uma mulher formosa, e que, quando os egípcios te virem, dirão: É sua mulher; e matar-me-ão, conservando-te a ti.” Após o belo uso da mesóclise, em “matar-me-ão”, continuou: “Dize, pois, te peço, que és minha irmã, para que eu seja bem tratado por causa de ti, e me conservem a vida, em atenção a ti.”

Nesta curta cena já estão postos vários dos elementos que nos séculos posteriores estarão presentes nas relações entre homens e mulheres – provando que não evoluímos absolutamente nada.

Abrão não demonstra especificamente ciúme, mas primeiramente desejo de não morrer. Isto porque reconhece que a mulher, formosa, despertará desejo nos egípcios, e que estes não terão pudor algum em matá-lo para ficar com sua mulher.

Para escapar da morte, o velhaco Abrão pede que ela confirme que é irmã dele. Assim, os egípcios não o matarão, mas a cortejarão. Abrão é até desprendido aí, não se importa que outros adulem a sua mulher. Pelo contrário, um bom cafetão primitivo, vê vantagens nisso, pois será bem tratado se pensarem que Sarai é sua irmã.

De fato, Abrão muito lucrou nesta história. O faraó quer conhecer Sarai, Abrão não se importa, e ainda ganha, como mimos, “ovelhas e bois e jumentos, e servos e servas, e jumentas e camelos”, isto é, toda espécie de animais.

Tudo estava bom para todos, o faraó toma Sarai como mulher, porém quem intervém na história, surpreendentemente, é o próprio Senhor, ferindo o faraó e sua casa com “grandíssimas pragas”. O faraó devolve a mulher ao corno materialmente feliz e o casal sai do Egito.

Pois bem, pois bem, aí está a primeira demonstração bíblica de como o terceiro elemento, o faraó, poderia desestabilizar a paz de um casal. A ganância sexual, ou amorosa, do faraó causaria a morte de Abrão, não fosse sua astúcia e desprendimento.

Mas tal desprendimento seria recompensado por Sarai. Estéril, diz a Abrão para ter com sua escrava, Agar, uma egípcia. Abrão faz em Agar um filho, mas logo Sarai começa a ter ciúme, pois Abrão passa a desprezá-la. Sarai reclama da injustiça de Abrão. Este, mais uma vez desprendido, diz a Sarai que faça o que quiser com a escrava. Sarai começa a maltratar a egípcia, que foge.

Contudo, no deserto, um anjo aparece a Agar diz lhe para voltar e humilhar-se perante a Sarai, prometendo-lhe que multiplicaria “extraordinariamente” a sua descendência.

Agar retorna, nasce Ismael. Alguns anos depois Deus aparece a Abrão e diz lhe: “Eu sou o Deus onipotente” (e prepotente) “anda em minha presença e te multiplicarei extraordinariamente”. Não havia muito a prometer, àquela época. Deus muda o nome do homem para Abraão e o da mulher para Sara, faço esta pequena digressão apenas para explicar a alteração dos nomes próprios no restante da história do casal.
Lot, sobrinho de Abraão, também usava as mulheres como mercadoria. Para proteger dois anjos que estavam em sua casa e o povo queria conhecê-los, disse aos homens: “Não queirais fazer este mal. Tenho duas filhas, que ainda são virgens; eu vo-las trarei, e abusai delas como vos agradar, contanto que não façais mal algum a estes homens”. Os anjos puxam Lot para dentro de casa e cegam todos os que de fora estavam. Isto se passa em Sodoma. Lot foge com as filhas, Sodoma é destruída.
Estando os três em um monte, Lot e suas filhas, a mais velha delas percebe que a geração deles se extinguirá. E propõe à mais nova: “Vem, embriaguemo-lo com vinho e durmamos com ele”. Dito e feito, cada noite uma dormiu com o velho, mas curioso é que não foi necessário que aparecesse nele a culpa, pois nenhuma vez ele percebeu “quando ela se deitou, nem quando se levantou”. Não há relatos de que, quando as barrigas apareceram, Lot tenha as questionado quem era o pai.

Enquanto isto… Abraão continua sua saga de mentir para sobreviver e lucrar. Em Gerara, peregrinando, chega com a mesma conversa: “É minha irmã”. O rei manda buscá-la. Mas Deus aparece em sonho ao rei e o avisa que, se tocar em Sara, morrerá. O rei, Abimelec, chama Abraão, queridinho do Senhor, e passa-lhe um esporro: “Que mal te fizemos nós para atraíres sobre mim e sobre o meu reino tão grande pecado?” Abraão sai-se com um jogo de palavras: “Ela é verdadeiramente minha irmã, filha de meu pai, embora não filha de minha mãe”. O rei, benevolentes reis, deu-lhe ovelhas e bois, e escravos e escravas, além de dinheiro a Sara. Deu-lhe também um véu, que ela deveria usar sobre os olhos, para sinalizar que era casada.

Deus interfere no útero de Sara e ela gera Isaac. Agora então pode Sara pedir a Abraão que expulse a egípcia, “porque o filho da escrava não há de ser herdeiro com meu filho Isaac”, um outro tipo de problema que ainda hoje gera muita discórdia. Abraão acha ruim, mas Deus aparece novamente e o convence a fazer o que Sara pede.
“Abraão, Abraão.”, chamou comicamente Deus algum tempo depois, quando resolveu colocá-lo em tentação, e a história continua, rocambolesca. Paremos aqui.

O outro. A outra. A cobiça furiosa dos reis. O amargor, a violência e a possessividade de Sara. É o terceiro elemento que inaugura os problemas de um casal.

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O GRANDE ROMANCE SOBRE RELACIONAMENTOS

É óbvio que existe uma teia complexa entre o que um autor vive e o que escreve. Se estou há alguns anos sem escrever praticamente nada sobre relacionamentos, há uma série de explicações, obviamente ligadas à minha vida pessoal.

Há 3 anos eu estou com um romance guardado em mim. Não está “estruturado”, nunca esteve, neste período. Aliás, nunca pensei nele. Mas sempre soube que ele estava aqui. Porque o que vivi foi tão recheado de aprendizados que eu sabia que, se resolvesse escrever sobre esse vivido, poderia escrever “o grande romance sobre relacionamentos”. Não “o grande romance” da literatura universal. Simplesmente o meu grande romance.
Porque um autor escreve apenas um livro realmente bom no decorrer de sua vida. O resto é “parte 2″, para sobreviver, para requentar a “fama”.
Mas talvez faltasse a conclusão. Hoje acho que não falta mais.
Pode ser que falte outra coisa: disposição para enfrentar o hercúleo de escrever 200 ou 300 páginas. Mas esta é a primeira. Que será descartada, posteriormente; o processo é assim mesmo.
Um projeto para o próximo ano? Não, sem datas. Indo conforme o vento.
Eu não penso mais em escrever “livros”. Isso é século XX, ainda. Livro “de papel” é só a cereja do bolo. E muitos bolos funcionam muito bem sem cerejas. Penso em entregá-lo aqui, em todas as suas fases de criação, conforme for saindo.

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