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EU ME AMO

Amar, no sentido proposto por Cristo, é deixar o outro ser o que é. É aceitar o que o outro é. Em suma, aceitar que o outro não te ama incondicionalmente, isto é, não é seu escravo sentimental, não é um objeto seu.
Parece algo bonito, a forma mais pura de amor. E é. Só que esse amor não é apenas generosidade para com o outro. No fundo, ele acaba sendo extremamente voltado a si próprio, benéfico para quem ama dessa maneira. Porque, aceitando o outro como ele é, o exercício que você está fazendo é de aceitar a sua própria impotência.

Pois se você pudesse mudar o outro, você mudaria.
Se você consegue aceitar que o outro não pode ser mudado, você está aceitando que você não pode mudá-lo. Você está aceitando o fato de não ser um Deus onipotente. Você está perdoando a si mesmo do seu fracasso em não ser esse Deus.
Não existe amor que não seja egoísta.

E digo mais, mesmo sob o risco de parecer exagerado: o objetivo desse amor é virar uma espécie de desprezo para com o outro. “Se você não me ama, não me importarei com você.”
Não se importando com o fato do outro não te amar como você gostaria que ele te amasse, você busca resgatar a sua superioridade não frente ao outro, mas frente à sua incapacidade de ser onipotente. “Já que eu não posso comandar o outro, comando ao menos a mim mesmo, e a partir de agora não me importo com o fato de você não me amar.”

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duas personagens do livro

O grande romance sobre relacionamentos precisa, basicamente, de duas personagens, um homem e uma mulher. Não poderia ser o mesmo com dois homens, ou duas mulheres, o significado seria distorcido por interpretações relacionadas ao homossexualismo. O grande romance precisa despir-se destes tipos de viés. Um velho e uma jovem, um magro e uma gorda etc., nada que gere adjetivos. Um homem comum, uma mulher comum, apenas. “Comum” não é adjetivo.

O terceiro elemento também é quase necessário. Pois se o homem e a mulher estivessem em uma ilha não seria um romance, mas uma alegoria ou o Gênesis revisitado.
Aliás, por que não revisitar o Gênesis antes de começar?

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SOBRE O SITE

o antigo Dias ConfusosBem-vindo(a) ao Dias Confusos. Nas linhas seguintes, explico a idéia deste site.

Tendo muitas idéias, sempre quis escrever “à sério”. Em 2003 resolvi levar isso adiante, e criei um blog, o Dias Confusos (que está no ar, ainda), hospedado no Blogger brasileiro. Meu projeto era escrever um texto de ficção (ou quase isso…) por dia, por um semestre, para desenvolver minhas capacidades. Escrevi, mas não sei se desenvolvi. Depois disso, passei a postar de maneira esporádica, até 2006.

Fiquei sem publicar quase nada na internet por dois anos, por uma série de razões. Talvez a principal fosse preguiça.

Dois anos depois, no meio de 2008, resolvi voltar “com tudo”.

Só que o Blogger brasileiro praticamente morreu, tanto em termos de popularidade quanto, especialmente, nos aspectos tecnológicos. Por isso migrei para o Blogspot.

Meus pequenos contos eram quase sempre sobre relacionamentos. Esse assunto ainda me intriga bastante, acho que assim sempre será. Talvez eu ainda tenha algo de novo a dizer sobre isso.

Contudo, quero que seja uma coisa bem feita, que me agrade. Desta forma, a idéia é trabalhar por alguns meses na estrutura, para a partir de 2009 poder me dedicar apenas ao conteúdo. Mas, até lá, tentarei manter o site atualizado diariamente.

Espero que tenha uma boa leitura e retorne (se gostou, aproveite e assine o feed do site e fique sabendo imediatamente de cada atualização).

Estes são os outros sites onde escrevo:

pensamentos soltos filmes, livros e músicas fatos bizarros e humor Psiquiatria e Psicologia dicas para blogs

E caso queira saber um pouquinho mais sobre mim, clique aqui na “biografia”.

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eu respiro 24 horas por dia

Estar apaixonado pode parecer a pior coisa do mundo, quando não há chances desse fogo se concretizar, ou quando se perde. Mas não é, há coisa ainda mais cruel: estar apaixonado em duas ao mesmo tempo, e ter que escolher uma.

Isso já me aconteceu uma vez, e falo então com o aval da experiência. E digo mais: pior que isso acontecer na vida de uma pessoa, é ocorrer duas vezes. E estou vendo que irá acontecer novamente.

E por que eu não escapo antes do inevitável? Justamente por isto: é inevitável.

Na verdade, não estou apaixonado em nenhuma, no sentido exato do termo. Nem fico pensando nelas durante o dia. Levo minha vida naturalmente. Mas sei bem porque não estou vidrado, e sei porque ficarei. Em uma, tudo vai bem porque estamos namorando.

Não gosto dela. Quer dizer, gosto. Mas é apenas bom. Poderia me casar com ela, e seria sempre bom. Mas bom é muito pouco. Falta alguma coisa.

E é essa coisa que eu vejo na outra. Dessa eu gosto. Só que não temos nada, nem um beijo para lembrar. E por que não temos nada? Pensam que é por que tenho namorada? Que é por que sou fiel? Nada a ver. Se ela quisesse, eu largaria minha namorada hoje e ficaria só com ela. E aí eu seria fiel, e não ficaria com ninguém porque eu teria uma namorada. Aliás, não é por fazer a troca que eu poderia ser chamado de infiel. Afinal, é uma coisa limpa, trocar uma pela outra, ou não? Ah, nada é limpo! Trair é sujeira. Trocar de um dia pro outro é também. As amigas dela dirão: “mas como assim, tudo tão bem e ele acaba do nada, pra ficar com outra?! Que bastardo!”. O que eu deveria fazer? “Preparar seu espírito”? Fazer ela não gostar mais de mim para que ela é que terminasse, e então se sentisse bem? Ou, por que eu gosto de outra, eu deveria nem namorar com esta que estou, “porque ela pode sofrer, se você terminar com ela”?

Certo, posso terminar com ela. Posso. Não quer dizer que vá terminar. Tudo depende da outra. Pode ser que ela nunca me queira, e então eu continuarei com minha namorada. Mesmo sem gostar dela? Mas eu gosto. É de um jeito meio morno, mas eu gosto. E pelo menos vai ter sido bom por um tempo, pra ela, e para mim. E sofrimentos passam. Ou eu deveria sacrificar minha felicidade para poupá-la de uns dias amargos?

Há uma outra alternativa, que é a de alertá-la: olha, eu gosto de outra, e se ela dissesse que me quer eu te largaria na mesma hora, mas se ela nunca falar isto eu fico com você o resto da minha vida. Mas já aprendi que há verdades inúteis. Para que dizer sobre algo que pode nem acontecer? Só para ela achar que vai acontecer, e ficar insegura, e bagunçar toda nossa história, que é legal? E pode nem acontecer da outra me querer…

O problema é: vai acontecer!

E o problema não é nem acontecer, é a palavra “vai”. Futuro. Se acontecesse hoje, todo mundo já sabe: eu largaria minha namorada na boa, na hora, sem inquietação alguma na consciência, sem uma nesga de dúvida. Mas vai demorar um pouquinho para acontecer. E é esse tempo que irá bagunçar as coisas. Porque eu estou me apegando à minha namorada. E apego é o cão. Como largar alguém a quem se é apegado? Só há uma maneira indolor: trocando isso por algo muito maior. Que é o caso do que sinto pela outra. Só que o fato de estar namorando, e este namoro ser bom, tem feito com que eu não me apaixone loucamente pela outra. Porque minha namorada satisfaz um pouco do que preciso. A paixão nasce no vácuo.

Então a equação é: minha namorada faz com que eu não apaixone na outra, mas não me faz esquecê-la como possibilidade. Se há a possibilidade, continua a expectativa, a tentativa. Mas, enquanto não acontece, gosto cada dia mais de minha namorada.

Se nunca fosse acontecer com a outra, é possível que um dia chegasse que eu dissesse que gosto tanto de minha namorada que não a trocaria mais pela outra. Mas que pensamento mais besta! Ó só: se nunca acontecesse com a outra, como é que eu poderia trocar a minha pela outra?!

E por que é que irá acontecer com a outra? Porque eu quero. Porque a quero. Porque quero e faço. E isso sempre dá certo, um dia ou outro.

Ela sabe que tenho namorada. E sabe que eu a largaria imediatamente para ficar com ela. Só que ela não sabe o que eu sei: que quando ela se decidir, eu já estarei tão próximo de minha namorada que será difícil largá-la impunemente. Sim, crime e castigo. Nem eu disse isso a ela. Porque aprendi que há verdades inúteis. Para que dizer sobre algo que irá acontecer? Só para ela ficar insegura, e bagunçar toda nossa história, que ainda nem aconteceu? O problema do moralismo nem é ser hipócrita, é ser imbecil.

Não tenho como desistir. Não aprendi isso. Meu amor por minha namorada cresce, mas nunca será suficiente. Eu sei disso. A gente sabe onde as coisas vão dar. Enquanto isso, ainda quero mais a outra, e por isto insisto com ela. Mas cada dia, porque amo mais a minha, cada dia tenho menos necessidade da outra. Mas ainda é maior.

E será exatamente assim: no dia exato em que o que sinto pelas duas for o mesmo tanto, nesse dia a outra irá dizer que quer. Não será nem um dia antes, quando eu faria a troca sem pensar, nem um dia depois, que eu já não a faria . Será no dia exato.

E aí será uma balbúrdia. Porque se eu ficar com a outra, minha namorada irá terminar comigo, e eu não irei querer isso. E não sei mentir bem. Se eu não ficar, eu é que não vou querer isso. Nesse dia terei uma espada no peito, e uma nas costas. Saída pela esquerda? Cair no nada. Sem chances. Pior que perder uma é perder as duas.

Aí volto no que eu dizia lá no começo: que querer duas é pior que querer uma. Porque perder uma é uma coisa, mas ter que escolher é, virtualmente, perder as duas. Independentemente da escolhida, passará o resto do tempo pensando na que foi deixada. E isso pode até levar a uma troca, mas que será satisfatória por apenas um dia, no amanhecer já estará com saudades da primeira.

Porque a verdade é que ninguém nos completa, mas as duas se completam ¿ digo, não que as duas juntas seriam felizes (quem sabe?), mas que eu seria com as duas. Mas desnecessário dizermos: chance zero de aceitarem isso…

Esse mundo é engraçado (sob um ponto de vista condescendente): eu posso gostar da outra, posso beijar seu rosto ao me despedir dela, posso tudo, mas no dia em que acontecer um beijo, aí tudo mudará. Um beijo acidental no canto da boca é aceitável, nem é trair. Mas se os lábios se tocarem, o mundo desaba. Por dois centímetros! Quem me explica isso?

A cada dia, aproxima-se mais o dia da escolha. Terei vontade de sumir, nesse momento, mas, de todas, esta é a única possibilidade impossível.

(Quantas vezes já morri,
e nunca se acostuma
Um saco de meus ossos nas costas
E mais e mais)

(Fernando César)

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a carteira

Apaixonei-me em uma carteira. Não estou falando de um banco escolar (vou me apaixonar em pau?!) nem da carteira que uma conhecida minha apaixonou-se, de couro, do namorado dela, recheada de dinheiro.

Estou falando da Amnésia, funcionária dos Correios, a ligeirinha. Na verdade, seu nome é Anésia, mas relance, em seu crachá, li “Amnésia”, e fiquei que seu nome era esse, achei estranho mas engraçado, e vai ver foi por isso… Porque se tivesse lido “Anésia” teria achado feio, e mulher bonita com nome feio não desce…

Mas nosso primeiro “encontro”, se é que assim posso chamar, não durou mais que um minuto. Ela tocou a campainha, fui ver o que era, uma encomenda, e eu tive que assinar um recibo. Umas duas semanas depois é que pude observá-la novamente, pois a campainha novamente tocou, e ela precisando de uma nova assinatura. Foi nessa segunda vez que achei que deveria comer a Amnésia, mas ninguém come a carteira, porque elas nunca param, nunca dão chance pra um papinho.

Aí bolei uma brilhante estratégia: comecei a mandar cartas registradas para mim mesmo. Todo dia mandava uma. E essas cartas começaram a chegar. No terceiro dia, dei uma disfarçada, e falei “Estou estabelecendo uns contatos aí, então tou esperando muitas respostas pelos próximos dias…

” No quarto dia puxei uma conversa boba, perguntei se ela não cansava, se não queria uma água. Ela aceitou, bebeu e saiu andando-correndo.

Conversinha vai, conversinah vem, e me dei conta que Amnésia, como qualquer carteiro, deveria saber técnicas de abrir uma carta e fechá-la novamente sem o destinatário perceber. E pensei que se eu nunca tivesse puxado papo com ela, provavelmente ela nunca abriria uma carta minha, que ela deveria ter coisas mais importantes pra fazer. Só que como agora já tínhamos uma certa intimidade, se é que posso chamar assim nossos breves papos, tive certeza de que ela iria querer saber porque diabos um cara começa a receber cartas registradas todos os dias.

Então passei a imprimir umas cartas sérias, cada dia uma diferente, pro caso dela abrir não ver que, ao contrário do início, eu só escrevia em um papel “Amnésia, quero te comer”.

Amnésia me entregava a carta, eu assinava, conversávamos um pouco. Ela começou a me contar umas coisas de sua vida, uns desabafos, e estava chegando a hora.

Numa quarta-feira falei a ela: – Preparei um lanche pra você!

Ela sorriu, surpreendida: – Mas eu não posso, tenho que terminar essas entregas.

- Ah, que isso? Cinco minutos não farão diferença!

Cinco viraram cinquenta. Enfim, biquei a moça.

Só que eu não havia colocado cartas no correio nem segunda nem terça. Então, na quinta ela não teve motivos para apertar a campainha. Deu um pouco de dó vê-la, pela fresta da janela, indecisa entre tocar ou não a campainha. Mas esses funcionários dos Correios têm que seguir umas normas muito rígidas, coitados, e Anésia foi embora. Deu dó, mas fazer o quê?!

(Fernando César)

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nu blado

“Não é que eu não seja o que pareço; é que eu não pareço tudo o que eu sou.”

Sempre há opções de ação. Você pode “ser você mesmo”, por uma decisão autônoma sua. Você pode agir como sempre o fez. (São duas coisas diferentes. Agir “como sempre” indica a existência de um comportamento padrão, mas não que este tenha sido condizente com “ser você mesmo”.) Ou você pode agir conforme a conveniência desse caso atual. Depende do objetivo – a honestidade consigo mesmo, a preguiça de fazer diferente, ou a busca de algo específico nessa situação.

Agir conforme a conveniência não significa, necessariamente, mentir. Você pode simplesmente se omitir, em algumas situações. Enfumaçar sua imagem. Tornar-se intangível. Alguns dirão que omitir é mentir, e eu concordarei. Mas teremos que admitir também que, se omitir é mentir, mentir é pior que omitir.

A vantagem de uma ação assim calculada é que se obtém mais do que se teria se assim não agisse. Pelo menos isso é o que se espera. Ou se obtém mais rapidamente. Quando você age como realmente é, não pense que isso mostrará o que a outra pessoa é. Mostrará apenas a reação dela ao que você é. O núcleo dela pode estar bem longe disso.

Já quando você começa a omitir-se, você cria espaço para que apareça não só o que a pessoa é, mas até para suas projeções sobre o que você é ou deveria ser. Sobre seus silêncios, ela irá construir suas falas. Mas qual o lucro obtido ao se chegar ao que a outra pessoa efetivamente é? A bem da verdade, quase nenhum. Mais vale estar com alguém que te faça bem do que conhecer a fundo esse mesmo alguém. Talvez mesmo essas duas coisas sejam incompatíveis: conhecer alguém e sentir-se bem perto desta pessoa. Impossível conhecer e gostar, simultaneamente.

Se é impossível, isto significa um fim. Conhecer é provocar o término da relação. Uma coisa que poderia durar anos durará meses ou semanas. Basta esperar a náusea chegar. É intenso, como um pavio queimando rapidamente, e a explosão. Mas se há uma coisa que uma criança nunca pensará é na prudência: se eu tenho uma bomba em minhas mãos, porque não irei acendê-la?

No fim, ela, a outra pessoa, sairá sem saber nada de você, mas achando que sabe demais. No fim, você sairá sabendo demais sobre ela, só não saberá o porquê de você mesmo agir assim, sairá sem saber nada de você mesmo…

(Fernando César)

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conoide e esferoide

Pedi: “me dêem uma tábua, que construirei uma ponte”.

Nesse momento, lembrei-me de Arquimedes que disse, há mais de dois mil anos, “me dêem um ponto de apoio, que moverei o mundo”. Senti-me uma merdinha, nesta comparação, mas o trabalho tinha que continuar.

E, vantagem por vantagem, ninguém deu tal ponto de apoio ao físico, e o mundo continuou no mesmo lugar, porque o infeliz também não teve a capacidade de ir sozinho buscar o ponto de apoio, muito menos de construir uma tábua que fosse da Terra àquele ponto. Ao invés disso, foi escrever um livro chamado “Dos conóides e esferóides”. Eu, hein!?

- Tá pensando em quê, senhor?

- Nada não, vamos logo com isso, que dormir aqui não vai ser nada bom.

Acabamos tendo que dormir por lá, as toras de madeira que arrumaram ou eram curtas ou eram finas, e não tivemos como passar o jipe de um lado ao outro do riacho.

No dia seguinte procuraríamos algum lugar onde a água fosse mais rasa, e passaríamos na louca, com jipe e todo mundo dentro.

Mas mais uma vez me enganei nos meus julgamentos, pois a noite foi agradabilíssima. Especialmente porque a filha do seu Antônio estava conosco, e acabamos nos perdendo, eu e ela, em busca de mais gravetos, a propósito de fazermos uma fogueira.

Já notou como ninguém “entra” na mata? Todos sempre se “embrenham na mata” – principalmente se for virgem…

Mas o fogo não foi necessário para nos esquentarmos. Estou falando de mim e da Sapeca.

(Fernando César)

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e cronica, policial

Matou a desgraçada.

Agora está preso, continua a ser visto como corno, e sente uma saudade sem fim da cachorra…

(Fernando César)

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faltas justificadas

- Ué, por que você não veio trabalhar ontem?
- Porque eu sabia que você viria, e não queria te ver. Me faria mal.
- E por que não veio anteontem? Fiquei sabendo que faltou também…
- É, não vim porque eu sabia que você não viria. Não queria te não-ver. Me faria mais mal ainda…

(Fernando César)

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porrada de todo lado

(para Lorena)

“Os opostos se distraem
Os dispostos se atraem”

(Teatro Mágico, em “Realejo”)

Há pessoas de sorte nesse mundo. Eu conheço algumas. Pessoas que logo no começo de suas vidas sentimentais encontraram A pessoa, namoraram, casaram, e vivem bem. Mas às vezes desconfio dessa facilidade (não dessa felicidade, que parece verdadeira). Desconfio que estariam bem com quase qualquer pessoa. Não vou dizer com “qualquer um” porque isso pareceria pejorativo. (É engraçado como as palavras melindram, e você pode dizer a mesma coisa sem ofender… O que é uma desvantagem, às vezes: quando queremos ofender e não conseguimos, quando falta a palavra ferina.)

Se a questão não é a sorte do encontro, no mínimo podemos dizer que são pessoas tranqüilas. Que aceitam com relativa naturalidade o que a vida lhes deu. Bom, nascer assim também é uma questão de sorte…

Pra mim, essa questão de sentimentos etc. nunca foi muito pacífica. E acho que nunca será. Tá bem, a gente poderia tentar buscar umas explicações na minha infância, essas coisas, mas isso nunca vai explicar de verdade, por completo, as pessoas como elas são. Infâncias similares à minha não darão necessariamente em alguém como eu. Infâncias melhores que a minha darão em casos piores que o meu. Pessoas nascem diferentes, pessoas têm destinos diferentemente traçados já ao nascer.

E a gente poderia também dizer que eu sou “mal-resolvido”. Essa palavra é extremamente preconceituosa, porque estabelece um juízo de valor: o ideal, o objetivo, é a pessoa ser “resolvida”. Isso significa, de uma maneira geral, ter poucas namoradas, engatar um namoro longo com uma dessas primeiras, noivar, casar, essas coisas. Como se isso fosse o melhor pra todo mundo. E como se a minha situação fosse, por conseqüência, pior que a dos “bem-resolvidos”. Tá, seria pior, se eu me sentisse mal na minha situação, se eu desejasse ter nascido com essa sorte de ser facilmente contentável. Ou com essa puta sorte de achar aos 20 anos a mulher-da-minha-vida. (Uma ótima frase, proferida por aí um dia desses: “A que eu estou é a mulher da minha vida; a outra é a mulher da minha existência, de todas as minhas reencarnações…” – não, apesar disso ele não fez nada pra ficar com essa segunda.)

Agora, se trocarmos “mal-resolvido” por “não-resolvido”, chegamos a um nível onde já é possível dialogar (porque dialogar com dogmas é impossível). OK, sou “não-resolvido”. Inconcluso.

E essa inconclusão não é uma coisa apenas sentimental, mas também intelectual. Aliás, não sei, mas talvez seja até mais intelectual que sentimental. As coisas me fazem pensar, e me apetece pensar sobre as coisas que me acontecem, e até sobre as que me não acontecem. Eu vou criando uns universinhos de possibilidades, de personagens, de histórias, de desfechos. E de desfechos inconclusos, como não poderia deixar de ser. Uma pequena enciclopédia ilustrada do amor e especialmente do desamor. Porque o amor é uno, mas o desamor tem mil possibilidades.

Às vezes eu penso que já pensei todas as possibilidades a serem pensadas. Ou melhor, esvaziando a pretensão da frase: penso que já pensei todas as possibilidades que eu poderia pensar. Mas na semana que vem ou no mês seguinte o caleidoscópio é girado novamente, e mais uma vez eu não entendo bem o que se passa, e preciso pensar, e preciso agir. Me apetece agir também.

Ao final da vida, tanto fará ter agido ou não, já que tudo vira pó mesmo. Contudo, durante a vida, agir me parece uma coisa boa. E hoje sei que é bom só para mim, desde que me convenci que, pra quem tem sono, aproveitar a vida é dormir. Eu não tenho muito sono, então me parece melhor fazer algumas coisas por aí. Uns desenhos sobre a água.

Pra mim, é vital. É ruim, de vez em quando. Geralmente é bom. Mas, em essência, é inevitável. É como se minha vida fosse o passar por um corredor polonês, tomando porrada de todo lado. Mas quando eu digo “porrada” é em um sentido totalmente diferente de algo ruim. É ruim, de vez em quando. Mas geralmente é bom.

A porrada é esse algo que me balança, só isso. É a provocação da vida. Às vezes eu olho praquelas pessoas sortudas e me pergunto: mas como é que essas coisas não acontecem com essas pessoas? Como é que quase nada as mobiliza? Como é possível que não tenham dúvidas, que não se abalem? Não estou dizendo que deveriam se abalar, se apaixonar, sofrer, viver em função dessas confusões. Só fico me perguntando como é possível. Só acho a resposta do “destino”, da personalidade que assim nasceu e assim morrerá. E isso, no fundo, não me responde nada, porque não há resposta possível, sempre entenderemos o “como” as coisas funcionam, nunca o “porquê” da vida ser assim.

Mas também sei que, aos poucos, essas porradinhas semanais, mensais ou diárias (a depender do plano astral) também vão criando, pelas reações que tenho, uma coleção de respostinhas, que se não servem a ninguém, ao menos a mim são úteis.

Essas historinhas são meu quebra-cabeças sagrado. Penso que se as perdesse ficaria sem um dos meus pilares. Seria como perder, de forma irrecuperável, o número 1 da coleção completa dos gibis do Batman. Gosto das histórias alheias, que escuto diariamente, mas no fundo elas raramente mexem comigo. (Seria demais, né, absorver as porradas minhas e as alheias… Como assistir a uma luta do Popó pela TV e acordar com hematomas.)

Sei que o inverso também é válido: as porradas que recebo de todo lado não interessam a ninguém. Não lhes interessa a dor em si (“dor” em um sentido totalmente diferente de algo ruim, também). Interessa a reação que tenho, ou é apenas voyeurismo. Mas como algo interessa, e sempre interessará, sempre existirá então pessoas que visitam a minha vida, ou a vida contada de qualquer pessoa. Ninguém é tão desinteressante a ponto de não ter uma história qualquer pra contar – mesmo que seja uma história entediante…

Sei, contudo, que a minha história completa só eu amo. E sempre amarei. Aprendi a me perdoar tentando fazer melhor da próxima vez. De um modo geral não consigo, mas como em tese sempre haverá uma próxima vez, sigo pensando na próxima. Ou nesta. Dessa vez farei melhor. Cometerei erros inéditos, apenas.

Você merece o melhor. (Chavão.) Você merece algo melhor. (Discurso pra abandonar sem ferir demais.) Não, quem merece o melhor sou eu: eu mereço que eu faça o melhor que eu puder, mesmo que isso signifique, eventualmente, o pior pra você. Mas se isso refletir em algo bom pra você, considere-se… uma pessoa de sorte!

Eu acho que sei o final dessa história (só não posso falar porque falar sobre o futuro altera o mesmo) e ando me sentindo velho demais pra tentar não ver e mais ainda pra fugir. Todo enquanto tá valendo a pena.

(Fernando César)

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