O TERCEIRO ELEMENTO
Publicado por admin em o grande romance em 20 de Abril de 2009
O Gênesis nos leva a reflexões curiosíssimas. O homem é criado, alguns parágrafos depois nasce a mulher. Logo esta come o fruto proibido e ambos são enxotados do Paraíso. Continuaram suas vidas, tiveram filhos, e pronto, a história deles acaba aí. Não é curioso que a história do primeiro homem a pisar a terra seja apenas isto? Se tempo tivesse, eu escreveria uma biografia de Adão. Porque não é possível que este homem, sendo já como seríamos hoje, não se pusesse a refletir sobre sua vida. Que crises existenciais deve ter passado, então! Por que Deus me criou? Para quê? Por que só eu? Por que, sendo tão poderoso, não me fez capaz de prevenir meus erros? Etc.
Também é intrigante a ausência de mais relatos sobre o casal. E não é por questão de espaço, pois mais adiante a Bíblia se perde em relatos absolutamente tediosos e desnecessários. Desnecessários? Se a Bíblia emana diretamente do desejo divino, não seriam. Deus não se preocuparia com futilidades. Nem deixaria de fora de Seu livro uma história importante, cinco páginas a mais pouca diferença fariam. Donde se conclui que, se a Bíblia nada fala sobre Adão e Eva é porque nada havia a dizer.
Expulsos foram do Paraíso, mas no paraíso conjugaram continuaram. Nem mesmo uma briga após a expulsão, Adão apontando o dedo para Eva e com ela gritando, “Você é uma estúpida, não deveria ter feito isto!”, ela, ainda mais alto, “Mas você também comeu, comeu porque quis!”. Nada disto. Passam por toda a eternidade sem discutir a relação, sem brigar, sem se separarem.
Por quê?
Suponho que seja basicamente por causa da inexistência do terceiro elemento: não havia outro homem, não havia outra mulher. Não havia, portanto, concorrência, egos a serem feridos.
Tanto que quando surge a primeira concorrência, imediatamente temos também o primeiro homicídio.
Caim e Abel, filhos de Adão e Eva, protagonizam a primeira cena de ciúme da história. Quando Deus olhou (isto é, admirou) Abel e seus dons, e apenas os dele, Caim “irou-se extremamente”. Deus percebe e sermaniza a Caim: “Sob ti está o seu desejo, e tu o dominarás”. Insuficientes palavras, e já pela segunda vez que percebemos que a persuasão não era um dos dons divinos: Caim prepara uma emboscada para o irmão e o mata.
Pois bem, Caim e Abel eram homens e aí já estava a inveja, o ciúme, a raiva. Tudo gerado pela concorrência criada pelo amor de Deus, que, inexplicavelmente, foi partidário e olhou apenas para os dons de Abel, enquanto Caim também os tinha, conforme a Bíblia nos conta.
Problemas semelhantes entre pessoas de sexo diferente irão aparecer apenas alguns parágrafos (e séculos) depois, com Abrão, filho de Taré, que foi gerado de Nacor, que foi gerado de Sarug etc., chegamos a Sem, pai dos semitas, filho de Noé, que era filho de etc., chegando a Set, esquecido filho de Adão e Eva.
Fato notável é que a Bíblia geralmente nomeia apenas os filhos homens. Após Set, Adão “gerou filhos e filhas”. Caim teve filhos também. Com quem?! Com uma irmã? Teríamos aí o primeiro incesto? Ou Deus teria criado, após Adão e Eva, mais algumas pessoas, sobressalentes? Mistérios divinos.
Um dos descendentes de Caim, Lamec, herdando seus genes ávidos, “tomou duas mulheres, uma chamada Ada, e outra Sela”. Mas nem a poligamia inaugural parece ter gerado muitos problemas, nada se fala sobre. Talvez Lamec tratasse as duas de forma igual.
Voltemos a Abrão, lá é que a disputa aparecerá pela primeira vez, de forma clara. A terra onde vivia Abrão foi abatida pela fome, e ele resolve partir para o Egito. Perto de chegar ao país, disse a Sarai, sua mulher: “Conheço que és uma mulher formosa, e que, quando os egípcios te virem, dirão: É sua mulher; e matar-me-ão, conservando-te a ti.” Após o belo uso da mesóclise, em “matar-me-ão”, continuou: “Dize, pois, te peço, que és minha irmã, para que eu seja bem tratado por causa de ti, e me conservem a vida, em atenção a ti.”
Nesta curta cena já estão postos vários dos elementos que nos séculos posteriores estarão presentes nas relações entre homens e mulheres – provando que não evoluímos absolutamente nada.
Abrão não demonstra especificamente ciúme, mas primeiramente desejo de não morrer. Isto porque reconhece que a mulher, formosa, despertará desejo nos egípcios, e que estes não terão pudor algum em matá-lo para ficar com sua mulher.
Para escapar da morte, o velhaco Abrão pede que ela confirme que é irmã dele. Assim, os egípcios não o matarão, mas a cortejarão. Abrão é até desprendido aí, não se importa que outros adulem a sua mulher. Pelo contrário, um bom cafetão primitivo, vê vantagens nisso, pois será bem tratado se pensarem que Sarai é sua irmã.
De fato, Abrão muito lucrou nesta história. O faraó quer conhecer Sarai, Abrão não se importa, e ainda ganha, como mimos, “ovelhas e bois e jumentos, e servos e servas, e jumentas e camelos”, isto é, toda espécie de animais.
Tudo estava bom para todos, o faraó toma Sarai como mulher, porém quem intervém na história, surpreendentemente, é o próprio Senhor, ferindo o faraó e sua casa com “grandíssimas pragas”. O faraó devolve a mulher ao corno materialmente feliz e o casal sai do Egito.
Pois bem, pois bem, aí está a primeira demonstração bíblica de como o terceiro elemento, o faraó, poderia desestabilizar a paz de um casal. A ganância sexual, ou amorosa, do faraó causaria a morte de Abrão, não fosse sua astúcia e desprendimento.
Mas tal desprendimento seria recompensado por Sarai. Estéril, diz a Abrão para ter com sua escrava, Agar, uma egípcia. Abrão faz em Agar um filho, mas logo Sarai começa a ter ciúme, pois Abrão passa a desprezá-la. Sarai reclama da injustiça de Abrão. Este, mais uma vez desprendido, diz a Sarai que faça o que quiser com a escrava. Sarai começa a maltratar a egípcia, que foge.
Contudo, no deserto, um anjo aparece a Agar diz lhe para voltar e humilhar-se perante a Sarai, prometendo-lhe que multiplicaria “extraordinariamente” a sua descendência.
Agar retorna, nasce Ismael. Alguns anos depois Deus aparece a Abrão e diz lhe: “Eu sou o Deus onipotente” (e prepotente) “anda em minha presença e te multiplicarei extraordinariamente”. Não havia muito a prometer, àquela época. Deus muda o nome do homem para Abraão e o da mulher para Sara, faço esta pequena digressão apenas para explicar a alteração dos nomes próprios no restante da história do casal.
Lot, sobrinho de Abraão, também usava as mulheres como mercadoria. Para proteger dois anjos que estavam em sua casa e o povo queria conhecê-los, disse aos homens: “Não queirais fazer este mal. Tenho duas filhas, que ainda são virgens; eu vo-las trarei, e abusai delas como vos agradar, contanto que não façais mal algum a estes homens”. Os anjos puxam Lot para dentro de casa e cegam todos os que de fora estavam. Isto se passa em Sodoma. Lot foge com as filhas, Sodoma é destruída.
Estando os três em um monte, Lot e suas filhas, a mais velha delas percebe que a geração deles se extinguirá. E propõe à mais nova: “Vem, embriaguemo-lo com vinho e durmamos com ele”. Dito e feito, cada noite uma dormiu com o velho, mas curioso é que não foi necessário que aparecesse nele a culpa, pois nenhuma vez ele percebeu “quando ela se deitou, nem quando se levantou”. Não há relatos de que, quando as barrigas apareceram, Lot tenha as questionado quem era o pai.
Enquanto isto… Abraão continua sua saga de mentir para sobreviver e lucrar. Em Gerara, peregrinando, chega com a mesma conversa: “É minha irmã”. O rei manda buscá-la. Mas Deus aparece em sonho ao rei e o avisa que, se tocar em Sara, morrerá. O rei, Abimelec, chama Abraão, queridinho do Senhor, e passa-lhe um esporro: “Que mal te fizemos nós para atraíres sobre mim e sobre o meu reino tão grande pecado?” Abraão sai-se com um jogo de palavras: “Ela é verdadeiramente minha irmã, filha de meu pai, embora não filha de minha mãe”. O rei, benevolentes reis, deu-lhe ovelhas e bois, e escravos e escravas, além de dinheiro a Sara. Deu-lhe também um véu, que ela deveria usar sobre os olhos, para sinalizar que era casada.
Deus interfere no útero de Sara e ela gera Isaac. Agora então pode Sara pedir a Abraão que expulse a egípcia, “porque o filho da escrava não há de ser herdeiro com meu filho Isaac”, um outro tipo de problema que ainda hoje gera muita discórdia. Abraão acha ruim, mas Deus aparece novamente e o convence a fazer o que Sara pede.
“Abraão, Abraão.”, chamou comicamente Deus algum tempo depois, quando resolveu colocá-lo em tentação, e a história continua, rocambolesca. Paremos aqui.
O outro. A outra. A cobiça furiosa dos reis. O amargor, a violência e a possessividade de Sara. É o terceiro elemento que inaugura os problemas de um casal.
EU ME AMO
Publicado por admin em Sem categoria em 21 de Setembro de 2008
duas personagens do livro
Publicado por admin em Sem categoria em 2 de Setembro de 2008
O GRANDE ROMANCE SOBRE RELACIONAMENTOS
Publicado por admin em o grande romance em 31 de Agosto de 2008
A GATINHA E A CADELA
Publicado por admin em contos, relacionamentos em 1 de Julho de 2008
Mas eis que de repente descobre que não se tratava de uma simples gatinha, mas de um animal mutante, que à noite transformava-se em uma cadela. Você odeia cachorros(as). Porque geralmente são mesmo como a cadela que a gatinha se transformava: bravos, não param de rosnar, espumando a boca. Mordem, destróem a casa com sua fúria espalhafatosa. Rebentam a coleira e saem sem rumo. Tudo o que a cadela fazia te desagradava ou machucava.
Algo você teria que fazer, e pensou em várias opções.
Expulsar a cadela.
Mas ficaria também sem a gatinha que ama. Matar a cadela teria o mesmo efeito.
Tentar educar a cadela. Mostrar a ela que o bom comportamento seria bem recompensado.
Em vão. A gatinha é domesticável, aprendeu todos os truques, o que te levou a acreditar que quando se transformasse em cadela comportar-se-ia como uma gatinha civilizada. Mas a cadela é do mato, e quando transformada percebeu-se que ela nada aprendeu. Ela continuou a te morder, e como doía!
Externar claramente a sua dor, gritar, chorar. Quem sabe a cadela tivesse dó?
Risos. Não faz parte do vocabulário das cadelas selvagens a palavra “dó”… Pelo contrário, elas sentem é prazer com a dor alheia. A cadela sorriu arreganhando o canto dos lábios.
Ameaçou a gatinha: na próxima transformação, a cadela será punida, a encherei de pancada, sem piedade, porque não gosto dela.
A gatinha ficou com medo. Ela é sensível. Você pensou que agora sim, tinha achado a solução. Mas, infelizmente, a gatinha não pôde domar o fenômeno e transformou-se em cadela mais uma vez. Você cumpriu o prometido e desceu o pau na cabeça da cadela. Quem sabe com a dor que sentiria a cadela, a gatinha pudesse fazer impedir-se, da próxima vez, a transformação?
Mas a cadela… Ah, as cadelas… As cadelas nem dor sentem direito! E o pior é que a pouca dor que sentem as atiça, as transforma em bestas muito mais atrozes. A cadela apanhou, mas mordeu muito mais forte desta vez. Você quase ficou sem a perna. E, depois de te agredir, ainda quis ir embora, mas você não deixou, porque poderia ficar sem a gatinha.
E mais: quando, no amanhecer do dia a gatinha ressurgiu (a cadela surge sempre à noite, a noite tem algo que a transforma), ela apareceu ferida, mancando, e você ainda teve pena. Jurou a ela nunca mais fazer agredí-la. E, naquela mesma noite, lá estava de volta a cadela… Seus olhos marejaram quando viram a besta surgir novamente…
Por que esta maldita transformação ocorria? – você se perguntava. Seria alguma substância que ela ingeria? Percebeu que a cadela tinha muito prazer com o sangue, parecia querer beber o sangue da carne de suas vítimas, e viu que isso a deixava ainda mais possuída, mas não era isso exatamente a causa da transformação.
Um dia você estava presente em sua casa, ao pôr-do-sol, e pela primeira vez presenciou a transformação ocorrer, passo-a-passo. E o que viu lhe cortou o coração. A gatinha parecia sentir prazer em estar virando aquele bicho que tanto te machucava.
E então você compreendeu que era da natureza daquele animal, que um dia apareceu na porta da sua casa, ser gatinha de dia e cadela à noite. A cadela não era uma aberração, era parte daquele animal, aquele animal que não era só uma gatinha, nem só uma cadela, que na verdade não era nada disso, pois não permanecia nunca como uma coisa ou outra. Você estava de frente a uma “gatela”! A metade daquele bicho você amava, a outra metade temia e odiava.
Você se sentou no sofá. Abaixou a cabeça e esfregou o rosto com as mãos. Teria uma decisão a tomar.
Resolveu trocar a gatela por uma gatinha de verdade. Foi a uma loja, comprou uma gatinha um tanto quanto parecida com a gatela-quando-gatinha. Bonitinha, mansa etc.
Ao chegar em casa, colocou a gatela na rua, já com certo pesar. Colocou a nova gatinha na sala. Olhou para ela e começou a chorar, mais uma vez. A irmã gêmea do seu amor não é seu amor. Passou a mão na cabeça da gatinha e a devolveu à loja.
Sentou-se mais uma vez em seu sofá.
Amava a gatinha e ela te amava. Odiava a cadela e ela te odiava. Sim, a cadela não te mordia gratuitamente, ela também sofria por tê-lo como “dono” – simplesmente porque cadelas não querem ter dono.
E, perguntando-se o que fazer, você compreendeu, de súbito, que não havia o que fazer.
À noite, recolheu-se em seu quarto e tentou dormir logo, para esquecer o que acontecia lá fora e para que o dia chegasse o mais rápido possível.
Mas teve insônia, e esta foi a pior noite de sua vida.
Intertexto
* um PS.: o Google não apenas tem solução para tudo, como consegue acabar com qualquer mistério da literatura… Um dos anúncios que eventualmente aparece no pé deste post promete resolver quase todo o drama do protagonista deste texto:

Tsc, tsc…
O HOMEM NÃO SABE FECHAR AS PERNAS DA MULHER
Publicado por admin em O Feminino, O Masculino, Psicologia, relacionamentos em 26 de Junho de 2008
Se uma mulher for atrás de seus ex, determinada a transar com eles, é bem provável que nenhum deles, ou muito poucos, recusem-se a receber o sexo oferecido. Homem raramente recusa sexo fácil, esteja ele solteiro ou casado – claro que, com uns, ela teria mais trabalho, mas conseguiria.
Já se um homem for atrás de suas ex, determinado a transar com elas, é bem provável que poucas aceitem o sexo oferecido. Especialmente se estiverem comprometidas, casadas, elas recusarão. Mulher sabe TRANCAR as pernas.
Essas características comportamentais dos dois sexos ajudam a explicar a dificuldade do homem em tomar a atitude de terminar um relacionamento, comparada à facilidade com que a mulher tem em colocar um ponto final, quando aquele homem não lhe interessa mais, naquele momento. Ela sabe que, se voltar atrás, um dia, ele dificilmente a recusará. Mesmo se ele já estiver com outra, ela volta ao jogo quando quiser.
Já o homem tem MEDO. Medo de se arrepender e, ao tentar voltar, escutar um categórico “não”. Medo de que aquelas pernas sejam eternamente fechadas para ele. E pior: abertas para outro. Ou seja, não é apenas o medo de perder uma, de ser rejeitado, é também o medo de perder para outro. Mexe-se tanto com o instinto “colecionador”, acumulador, do homem, quanto com seu instinto competitivo.
Um homem teme abandonar uma mulher, mesmo que ela lhe faça mal, mesmo que não goste muito mais dela, porque desconfia que, se fizer isso, aquela mulher se sentirá enfurecida, sentirá ódio dele (sim, ela sentirá), procurará outro (sim, ela procurará), acabará se interessando em outro (sim etc.) e, quando isso acontecer, até mesmo por vingança, sadismo, recusará aquele primeiro, caso ele a procure.
Então, quando um homem pensa em abandonar uma mulher, ele sabe: posso estar perdendo esta b* PARA SEMPRE. Daí toda a sua biologia masculina fala contra isto. Ele, mesmo morrendo de vontade de mandar aquela mulher ir pastar, ir tomar no c*, não a manda. Engole calado.
Paradoxalmente, talvez só exista um caso em que aquelas pernas abandonadas não se fecharão: é quando o homem que as abandona nunca mais vai atrás delas. Se elas não acharem outro dono, um dia elas retornarão espontaneamente. Abertas.
Um homem só conseguirá ser livre quando puder olhar para uma mulher e pensar: “nunca mais comerei sua b*, outros comerão, mas ok!” Mas o homem não consegue, esta idéia do “nunca mais” é insuportável para ele. O homem nunca consegue fechar as pernas da mulher.
PS.: perdão pelos termos relativamente chulos, mas o homem que pensa em “penetrar uma vagina” nunca foi homem…
Intertexto:
* a famosa peludinha de Coubert, citada nos comentários, em foto que tirei em Paris (Musée d’Orsay, se não me engano) – pensei mesmo em usar este quadro como ilustração para o post, mas, mais que “escandaloso” (em pleno ano 2008!), seria óbvio demais.
A MOÇA DA LOJINHA
Publicado por admin em O Feminino, Psicologia, contos, relacionamentos em 9 de Junho de 2008
Sei que tem um sorriso bonito – mas qual sorriso não seria bonito?! – meu Deus, é hoje o Dia Internacional da Digressão?!
Tem um sorriso bonito – ou qualquer outro bom adjetivo – e a bunda bem comprimida em uma bermuda jeans.
Essa moça é casada.
E é absurdamente infiel. Mas ela não sabe disso.
Esse sorriso dela é que a torna infiel. Quando o descrevi, disse que era “bonito”. Mas, na verdade, é encantador. Não estou apenas trocando um adjetivo por outro mais intenso. Digo “encantador” no sentido de sedutor. Pensem na origem da palavra “encantar”. Não sabem, ok. Nem eu. Mas me lembra o canto das sereias, que enfeitiçava os antigos marinheiros tragando suas vidas – menção honrosa seja feita a Ulisses, que a elas conseguiu resistir, embora a custo de engenhoso artifício(1).
O sorriso da moça seduz porque é gratuito. Tenho certeza que seu patrão não a instruiu para a gentileza, muito menos a persuadiu a isto. Porque todos os outros funcionários da lojinha tratam bem os clientes, mas não sorriem gratuitamente.
(E tenho certeza que é patrão, e não patroa – caso fosse, já estaria demitida.)
A moça da lojinha não, ela sorri docemente – qual sorriso não é doce?! O que não é dado para nós?
Ela sorri candidamente a cada vez. A cada vez que entramos na loja, a cada vez que olhamos para ela, a cada vez que pagamos, a cada vez que saímos. A cada vez, enfim.
Chegamos a ficar sem saber o que fazer. Ao primeiro sorriso retribuímos, por educação. Mas e a todos os outros?!
Esse seu sorriso me parece uma carência extrema. Lembra-me aquele mito da mulher esperando o príncipe no cavalo branco. Numa versão mais moderna, talvez. Ela parece querer ser raptada.
Que ela é casada sei porque vi a aliança. Que é casada e sorri infinitamente, é apenas o que sei dela. O resto deduzo. Que seu marido não é rico. Que deve ser, no mínimo, um pouco ciumento. Que não tem, o casal, muito tempo para divertir-se, pois ela trabalha muito. Que ela se casou por gostar dele, mas sabia que ele não era o príncipe. Que quando ela passou a trabalhar nessa loja ela tomou contato com vários outros homens, com mais dinheiro. Que ela não quer dinheiro, apenas a liberdade que esse lhe daria – esse homem e seu dinheiro. Ela quer que o príncipe pare na porta da loja com seu carro e lhe leve para viajar.
Talvez eu esteja completamente enganado – seria ela a esposa do dono da loja? Mas isto não explicaria nem porque ela trabalha tanto nem o sorriso inabalável.
Suponho também que ela não traia o marido. Deve ter sido criada dentro de princípios honestos, tanto é que trabalha. Não foi obrigada a casar, não tem cara de quem tem filhos. Se casou, tem que ser fiel. Tudo isso permanece no seu consciente. Não pensa em trair. Não fica pensando no príncipe. Ocasionalmente deve ter sonhos que acha estranhos, com homens desconhecidos, um rosto que viu no dia. Acorda um pouco confusa.
O seu sorriso é que a-trai.
Se ela traísse o marido, não sorriria assim, indiscriminadamente. Para quase todos os homens. Ela não percebe, mas para uns ela sorri mais que para outros. E para as mulheres, um pouco menos ainda (e a amplitude de abertura da boca é ligeiramente menor). Coisas sutis.
Deve receber muitas cantadas. Sutis também, pois não é oferecida, longe disso. Cantadas grosseiras refletem não o caráter do homem, mas o da mulher que as recebe. Como são sutis, apenas finge que não as entendeu, pois é casada e fiel. Sente-se lisonjeada, apenas. Levemente satisfeita.
Contudo, não é isso que ela quer. Ela quer ser raptada. Uma proposta irrecusável. Nada de casa, comida e roupa lavada. Quer hotel, bebida e biquíni. E aninhamento, claro.
Então ela soltaria seu cabelo.
Essa moça é uma sereia. Mas ela não sabe disso.
O que encanta nessa moça não é apenas o seu sorriso. Para quem consegue ver além, há também esta sua ingenuidade. Semi-ingenuidade. Um Demônio sem consciência, sem culpa.
Deus permita que ela nunca tome consciência do que é, ou pararia de sorrir.
Invertendo tudo agora… Será que ela é apenas simpática e eu é que estou querendo raptá-la? Raptar esta simpatia extrema? Tê-la só para mim?
Já disseram que o “canto das sereias” era apenas o som do vento passando por rochedos e resvalando nas ondas, o que o tornava quase feminino. Os marinheiros, curiosos, se dirigiam à origem desse som e seus barcos quebravam nas pedras.
Intertexto
* (1) para escapar do canto das sereias, Ulisses (ou Odisseu) tapou o ouvido dos outros tripulantes e amarrou-se ao mastro do navio;
* nem todas as sereias têm corpo de peixe: algumas possuem corpo de pássaro;
* diz a lenda que a única forma conseguir se livrar de uma sereia é cantar ainda mais bonito que ela;
* Franz Kafka, em um conto de 1917, escreveu: “As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível que seu canto: seu silêncio.”
SOBRE O SITE
Publicado por admin em Sem categoria em 31 de Dezembro de 2007
Bem-vindo(a) ao Dias Confusos. Nas linhas seguintes, explico a idéia deste site.
Tendo muitas idéias, sempre quis escrever “à sério”. Em 2003 resolvi levar isso adiante, e criei um blog, o Dias Confusos (que está no ar, ainda), hospedado no Blogger brasileiro. Meu projeto era escrever um texto de ficção (ou quase isso…) por dia, por um semestre, para desenvolver minhas capacidades. Escrevi, mas não sei se desenvolvi. Depois disso, passei a postar de maneira esporádica, até 2006.
Fiquei sem publicar quase nada na internet por dois anos, por uma série de razões. Talvez a principal fosse preguiça.
Dois anos depois, no meio de 2008, resolvi voltar “com tudo”.
Só que o Blogger brasileiro praticamente morreu, tanto em termos de popularidade quanto, especialmente, nos aspectos tecnológicos. Por isso migrei para o Blogspot.
Meus pequenos contos eram quase sempre sobre relacionamentos. Esse assunto ainda me intriga bastante, acho que assim sempre será. Talvez eu ainda tenha algo de novo a dizer sobre isso.
Contudo, quero que seja uma coisa bem feita, que me agrade. Desta forma, a idéia é trabalhar por alguns meses na estrutura, para a partir de 2009 poder me dedicar apenas ao conteúdo. Mas, até lá, tentarei manter o site atualizado diariamente.
Espero que tenha uma boa leitura e retorne (se gostou, aproveite e assine o feed do site e fique sabendo imediatamente de cada atualização).
Estes são os outros sites onde escrevo:
E caso queira saber um pouquinho mais sobre mim, clique aqui na “biografia”.
eu respiro 24 horas por dia
Publicado por admin em Sem categoria em 16 de Maio de 2006
Estar apaixonado pode parecer a pior coisa do mundo, quando não há chances desse fogo se concretizar, ou quando se perde. Mas não é, há coisa ainda mais cruel: estar apaixonado em duas ao mesmo tempo, e ter que escolher uma.
Isso já me aconteceu uma vez, e falo então com o aval da experiência. E digo mais: pior que isso acontecer na vida de uma pessoa, é ocorrer duas vezes. E estou vendo que irá acontecer novamente.
E por que eu não escapo antes do inevitável? Justamente por isto: é inevitável.
Na verdade, não estou apaixonado em nenhuma, no sentido exato do termo. Nem fico pensando nelas durante o dia. Levo minha vida naturalmente. Mas sei bem porque não estou vidrado, e sei porque ficarei. Em uma, tudo vai bem porque estamos namorando.
Não gosto dela. Quer dizer, gosto. Mas é apenas bom. Poderia me casar com ela, e seria sempre bom. Mas bom é muito pouco. Falta alguma coisa.
E é essa coisa que eu vejo na outra. Dessa eu gosto. Só que não temos nada, nem um beijo para lembrar. E por que não temos nada? Pensam que é por que tenho namorada? Que é por que sou fiel? Nada a ver. Se ela quisesse, eu largaria minha namorada hoje e ficaria só com ela. E aí eu seria fiel, e não ficaria com ninguém porque eu teria uma namorada. Aliás, não é por fazer a troca que eu poderia ser chamado de infiel. Afinal, é uma coisa limpa, trocar uma pela outra, ou não? Ah, nada é limpo! Trair é sujeira. Trocar de um dia pro outro é também. As amigas dela dirão: “mas como assim, tudo tão bem e ele acaba do nada, pra ficar com outra?! Que bastardo!”. O que eu deveria fazer? “Preparar seu espírito”? Fazer ela não gostar mais de mim para que ela é que terminasse, e então se sentisse bem? Ou, por que eu gosto de outra, eu deveria nem namorar com esta que estou, “porque ela pode sofrer, se você terminar com ela”?
Certo, posso terminar com ela. Posso. Não quer dizer que vá terminar. Tudo depende da outra. Pode ser que ela nunca me queira, e então eu continuarei com minha namorada. Mesmo sem gostar dela? Mas eu gosto. É de um jeito meio morno, mas eu gosto. E pelo menos vai ter sido bom por um tempo, pra ela, e para mim. E sofrimentos passam. Ou eu deveria sacrificar minha felicidade para poupá-la de uns dias amargos?
Há uma outra alternativa, que é a de alertá-la: olha, eu gosto de outra, e se ela dissesse que me quer eu te largaria na mesma hora, mas se ela nunca falar isto eu fico com você o resto da minha vida. Mas já aprendi que há verdades inúteis. Para que dizer sobre algo que pode nem acontecer? Só para ela achar que vai acontecer, e ficar insegura, e bagunçar toda nossa história, que é legal? E pode nem acontecer da outra me querer…
O problema é: vai acontecer!
E o problema não é nem acontecer, é a palavra “vai”. Futuro. Se acontecesse hoje, todo mundo já sabe: eu largaria minha namorada na boa, na hora, sem inquietação alguma na consciência, sem uma nesga de dúvida. Mas vai demorar um pouquinho para acontecer. E é esse tempo que irá bagunçar as coisas. Porque eu estou me apegando à minha namorada. E apego é o cão. Como largar alguém a quem se é apegado? Só há uma maneira indolor: trocando isso por algo muito maior. Que é o caso do que sinto pela outra. Só que o fato de estar namorando, e este namoro ser bom, tem feito com que eu não me apaixone loucamente pela outra. Porque minha namorada satisfaz um pouco do que preciso. A paixão nasce no vácuo.
Então a equação é: minha namorada faz com que eu não apaixone na outra, mas não me faz esquecê-la como possibilidade. Se há a possibilidade, continua a expectativa, a tentativa. Mas, enquanto não acontece, gosto cada dia mais de minha namorada.
Se nunca fosse acontecer com a outra, é possível que um dia chegasse que eu dissesse que gosto tanto de minha namorada que não a trocaria mais pela outra. Mas que pensamento mais besta! Ó só: se nunca acontecesse com a outra, como é que eu poderia trocar a minha pela outra?!
E por que é que irá acontecer com a outra? Porque eu quero. Porque a quero. Porque quero e faço. E isso sempre dá certo, um dia ou outro.
Ela sabe que tenho namorada. E sabe que eu a largaria imediatamente para ficar com ela. Só que ela não sabe o que eu sei: que quando ela se decidir, eu já estarei tão próximo de minha namorada que será difícil largá-la impunemente. Sim, crime e castigo. Nem eu disse isso a ela. Porque aprendi que há verdades inúteis. Para que dizer sobre algo que irá acontecer? Só para ela ficar insegura, e bagunçar toda nossa história, que ainda nem aconteceu? O problema do moralismo nem é ser hipócrita, é ser imbecil.
Não tenho como desistir. Não aprendi isso. Meu amor por minha namorada cresce, mas nunca será suficiente. Eu sei disso. A gente sabe onde as coisas vão dar. Enquanto isso, ainda quero mais a outra, e por isto insisto com ela. Mas cada dia, porque amo mais a minha, cada dia tenho menos necessidade da outra. Mas ainda é maior.
E será exatamente assim: no dia exato em que o que sinto pelas duas for o mesmo tanto, nesse dia a outra irá dizer que quer. Não será nem um dia antes, quando eu faria a troca sem pensar, nem um dia depois, que eu já não a faria . Será no dia exato.
E aí será uma balbúrdia. Porque se eu ficar com a outra, minha namorada irá terminar comigo, e eu não irei querer isso. E não sei mentir bem. Se eu não ficar, eu é que não vou querer isso. Nesse dia terei uma espada no peito, e uma nas costas. Saída pela esquerda? Cair no nada. Sem chances. Pior que perder uma é perder as duas.
Aí volto no que eu dizia lá no começo: que querer duas é pior que querer uma. Porque perder uma é uma coisa, mas ter que escolher é, virtualmente, perder as duas. Independentemente da escolhida, passará o resto do tempo pensando na que foi deixada. E isso pode até levar a uma troca, mas que será satisfatória por apenas um dia, no amanhecer já estará com saudades da primeira.
Porque a verdade é que ninguém nos completa, mas as duas se completam ¿ digo, não que as duas juntas seriam felizes (quem sabe?), mas que eu seria com as duas. Mas desnecessário dizermos: chance zero de aceitarem isso…
Esse mundo é engraçado (sob um ponto de vista condescendente): eu posso gostar da outra, posso beijar seu rosto ao me despedir dela, posso tudo, mas no dia em que acontecer um beijo, aí tudo mudará. Um beijo acidental no canto da boca é aceitável, nem é trair. Mas se os lábios se tocarem, o mundo desaba. Por dois centímetros! Quem me explica isso?
A cada dia, aproxima-se mais o dia da escolha. Terei vontade de sumir, nesse momento, mas, de todas, esta é a única possibilidade impossível.
(Quantas vezes já morri,
e nunca se acostuma
Um saco de meus ossos nas costas
E mais e mais)
(Fernando César)
a carteira
Publicado por admin em Sem categoria em 11 de Maio de 2006
Apaixonei-me em uma carteira. Não estou falando de um banco escolar (vou me apaixonar em pau?!) nem da carteira que uma conhecida minha apaixonou-se, de couro, do namorado dela, recheada de dinheiro.
Estou falando da Amnésia, funcionária dos Correios, a ligeirinha. Na verdade, seu nome é Anésia, mas relance, em seu crachá, li “Amnésia”, e fiquei que seu nome era esse, achei estranho mas engraçado, e vai ver foi por isso… Porque se tivesse lido “Anésia” teria achado feio, e mulher bonita com nome feio não desce…
Mas nosso primeiro “encontro”, se é que assim posso chamar, não durou mais que um minuto. Ela tocou a campainha, fui ver o que era, uma encomenda, e eu tive que assinar um recibo. Umas duas semanas depois é que pude observá-la novamente, pois a campainha novamente tocou, e ela precisando de uma nova assinatura. Foi nessa segunda vez que achei que deveria comer a Amnésia, mas ninguém come a carteira, porque elas nunca param, nunca dão chance pra um papinho.
Aí bolei uma brilhante estratégia: comecei a mandar cartas registradas para mim mesmo. Todo dia mandava uma. E essas cartas começaram a chegar. No terceiro dia, dei uma disfarçada, e falei “Estou estabelecendo uns contatos aí, então tou esperando muitas respostas pelos próximos dias…
” No quarto dia puxei uma conversa boba, perguntei se ela não cansava, se não queria uma água. Ela aceitou, bebeu e saiu andando-correndo.
Conversinha vai, conversinah vem, e me dei conta que Amnésia, como qualquer carteiro, deveria saber técnicas de abrir uma carta e fechá-la novamente sem o destinatário perceber. E pensei que se eu nunca tivesse puxado papo com ela, provavelmente ela nunca abriria uma carta minha, que ela deveria ter coisas mais importantes pra fazer. Só que como agora já tínhamos uma certa intimidade, se é que posso chamar assim nossos breves papos, tive certeza de que ela iria querer saber porque diabos um cara começa a receber cartas registradas todos os dias.
Então passei a imprimir umas cartas sérias, cada dia uma diferente, pro caso dela abrir não ver que, ao contrário do início, eu só escrevia em um papel “Amnésia, quero te comer”.
Amnésia me entregava a carta, eu assinava, conversávamos um pouco. Ela começou a me contar umas coisas de sua vida, uns desabafos, e estava chegando a hora.
Numa quarta-feira falei a ela: – Preparei um lanche pra você!
Ela sorriu, surpreendida: – Mas eu não posso, tenho que terminar essas entregas.
- Ah, que isso? Cinco minutos não farão diferença!
Cinco viraram cinquenta. Enfim, biquei a moça.
Só que eu não havia colocado cartas no correio nem segunda nem terça. Então, na quinta ela não teve motivos para apertar a campainha. Deu um pouco de dó vê-la, pela fresta da janela, indecisa entre tocar ou não a campainha. Mas esses funcionários dos Correios têm que seguir umas normas muito rígidas, coitados, e Anésia foi embora. Deu dó, mas fazer o quê?!
(Fernando César)




